Título: Delegado defende lei para garantir a autonomia
Autor: Autran, Paula
Fonte: O Globo, 24/12/2006, Rio, p. 14
Na opinião de Rubem César, estrutura das polícias não evoluiu
O delegado Alexandre Neto e o advogado, economista e especialista em violência urbana Ib Teixeira concordam com antropóloga Jacqueline Muniz:
¿ A polícia de hoje é a do poder político. Temos que ter uma Lei Orgânica nacional que a torne autônoma administrativa e financeiramente. Se não se fizer isto, a população vai continuar pagando por proteção, em vez de ter segurança ¿ diz Neto, defendendo que candidatos não eleitos não voltem a trabalhar para o estado, assim como o fim do foro privilegiado. ¿ Funcionário público no poder tem que estar sujeito à lei, e quem atentar contra ela tem que receber pena em dobro. Se não for assim, vamos continuar tendo esta polícia Rex, que funciona na base do ¿pega, Rex!¿
Ib Teixeira também destaca que a solução para as polícias é política. Para ele, o que temos hoje é uma polícia sem qualidade, uma caricatura de polícia técnica e de inteligência, burocrática e ineficiente.
¿ Nossa polícia é burocrática, com horários impossíveis de serem cumpridos (plantões de 24 horas por 72 horas de folga), bastante corrupta ¿ afirma ele, que atribui parte dos problemas à fusão do estado da Guanabara com o do Rio. ¿ Tradicionalmente, a do estado do Rio era de péssima qualidade, corrupta, comandada por políticos. Já a PM da Guanabara, que é secular, era bastante eficaz na época do Distrito Federal e do estado da Guanabara. Neste sentido, a fusão foi um desastre.
O sociólogo Rubem César Fernandes, diretor-executivo do Viva Rio, encontra as raízes do problema também na organização das instituições policiais com base em padrões antigos da ditadura.
¿ Enquanto a estrutura das polícias permanece centralizada, pouco funcional e hierarquizada, o mundo mudou barbaramente. E o Rio também, assim como as favelas, o crime organizado... A polícia não acompanhou estas mudanças. Diante das pressões, acabou corrompida e muito violenta. Perdendo o eixo de gerar segurança, ela acaba gerando insegurança ¿ analisa Rubem César, otimista com o que considera o início de um processo de reforma da PM, depois da realização, em julho deste ano, do seminário ¿A Polícia que queremos¿, que envolveu 600 policiais. ¿ O seminário por si só já foi positivo. E o coordenador deste processo, coronel Ubiratan Ângelo, ter sido indicado para comandante-geral da PM pelo novo governador é também muito bom. Não foi por ser amigo dos amigos, mas por ter uma plataforma de mudanças.
O sociólogo destaca ainda a importância da criação de uma corregedoria de polícia com carreira própria, para que haja maior independência nas investigações:
¿ É muito difícil um policial julgar seu colega.