Título: A polêmica sobre terrorismo no Rio
Autor: Gois, Chico de e Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 03/01/2007, Rio, p. 13
A declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que há terrorismo no Rio provocou polêmica e a reação do prefeito Cesar Maia, que afirmou não existir sinal desse problema no Brasil. Especialistas da área de segurança ficaram divididos: estudiosos americanos endossaram a definição, mas, entre brasileiros, não houve consenso. Para adeptos do conceito mais tradicional de terrorismo, que pressupõe que exista uma motivação política, com intuito de tomar o poder estabelecido, por trás dos atos violentos, os ataques no Rio não passam, pura e simplesmente, de exemplos de barbárie. Já estudiosos que acreditam que o terrorismo atual não é mais alimentado somente por ideologias, mas também pelo interesse do crime organizado em obter benefícios, concordaram com Lula em relação aos ataques a prédios públicos e a ônibus no Rio.
- A idéia central é que estamos ligados a um processo novo, que não pode ser analisado do mesmo modo que na Guerra Fria. São novas ameaças, entre elas, o crime organizado, que desafia o Estado para obrigá-lo a fazer, ou a deixar de fazer, algo. O novo terrorismo tem o objetivo político de enfraquecer a ordem institucional, o estado de direito, para obter benefícios. Não age pela tomada do poder, como antes - defende o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor da UFRJ.
Para o professor Ronaldo Leão, diretor do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense, os bandidos do Rio usam métodos terroristas para defender seu negócio, ameaçado pelas milícias.
- A ideologia não é chegar ao poder, eles não querem criar um narcoestado, mas vender drogas. Não é o terrorismo clássico, mas uma variante.
Nos Estados Unidos, não há dúvidas sobre a natureza dos ataques no Rio. Segundo Brent Heminger, analista do Terrorism Research Center, grupo privado que reúne analistas de segurança e terrorismo em Washington, Lula usou o termo certo ao classificar os episódios de violência no estado, descritos pelo especialista como "terrorismo urbano contra alvos civis, que freqüentemente causam vítimas civis, para intimidar ou forçar o governo brasileiro". E acrescentou:
- Nós apoiamos as declarações do presidente Lula. O uso indiscriminado da violência pelo crime organizado contra populações civis deve ser uma preocupação para o povo brasileiro e as forças de segurança do país.
Segundo especialistas americanos, o terrorismo hoje vai além de atos como o ataque ao World Trade Center, em Nova York, em 2001. Apesar de dentro do próprio governo existirem diferentes interpretações sobre o tema, ultimamente tem prevalecido a usada pelo FBI, a polícia federal americana: "terrorismo é o uso ilegal ou ameaça de violência contra pessoas ou propriedade para promover objetivos políticos ou sociais. A intenção habitual é a de intimidar ou coagir um governo, indivíduos ou grupos, ou modificar o seu comportamento ou política".
No grupo dos que discordam de que haja terrorismo no Rio estão o prefeito Cesar Maia e o ex-secretário nacional antidrogas, Walter Maierovitch. Para o primeiro, o que diferencia o Brasil internacionalmente é que não existe nem sinal de terrorismo no país, o que o ajudaria a atrair grandes eventos, como os Jogos Pan-Americanos de 2007:
- Certamente não é terrorismo, pois o que caracteriza este é uma razão ideológica, política, religiosa. As máfias italiana e americana caracterizavam-se como crime organizado, mas não terrorismo. Lula, como presidente, não pode usar de forma irresponsável e solta uma expressão que nada tem a ver com os fatos ocorridos aqui, em São Paulo.
Maierovitch admite que os episódios de violência são atos terroristas, mas não terrorismo.