Título: Posse, mágoas e promessas
Autor: Cruvinel, Tereza
Fonte: O Globo, 02/01/2007, Panorama Político, p. 2
Os ministros que lá estavam em sua maioria devem sair, embora já sejam conhecidos os partidos e forças da coalizão governista, a qual Lula não se referiu em seu discurso.
Embora ele tenha sido escrito a oito mãos, não houve uma só passagem que não tenha sido concebida por ele mesmo. Inclusive as queixas das críticas recebidas e as estocadas em segmentos das elites, como na negação de que seu governo seja populista, caracterizando-o como popular. Quando Lula fala em elites, sabe-se que não está falando da elite econômica propriamente dita, mas de um certo corte da sociedade, sobretudo da classe média e da intelectualidade refratária a seu governo, a seu estilo e às suas políticas sociais. Essas pontas de amargura já haviam aparecido em seu discurso do ato de diplomação. São compreensíveis, mas agora é tempo de sublimar essas mágoas de campanha, assim como é tempo de a oposição assimilar a derrota. Neste sentido, o comparecimento do líder da minoria, o pefelista José Carlos Aleluia, foi uma nota civilizada.
Voltando ao discurso, que só ficou pronto pouco antes da hora da posse, participaram de sua redação, além de Lula, os ministros Luiz Dulci e Tarso Genro e o assessor especial Marco Aurélio Garcia. Em sua primeira parte, Lula explora os significados políticos de sua eleição, reitera sua origem social e o compromisso com os mais pobres, que pontuaram todo o texto: "Em outubro, nossa população afirmou de modo inequívoco que não precisa nem admite tutela de nenhuma espécie para fazer a sua escolha".
O núcleo duro aparece na segunda parte, em que ele anuncia o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), na verdade o mesmo pacote que não conseguiu fechar em dezembro. Lula reafirma compromissos importantes, como o de buscar o crescimento sem negligenciar a responsabilidade fiscal, e alinha algumas prioridades: crédito, ampliação da infra-estrutura e do programa de bioenergia, aperfeiçoamento dos marcos jurídicos, redução de entraves burocráticos, unificação do ICMS, desoneração de alguns segmentos produtivos para estimular o investimento privado. A seguir, ele defende suas políticas sociais e volta a externar mágoa quando contesta os que as classificam de compensatórias. A promessa que importa, entretanto, e que lhe deve ser cobrada, é a de crescimento com distribuição de renda e educação de qualidade.
Na parte mais política do discurso, reconhecendo que a política nunca esteve tão em baixa em todo o mundo mas nunca foi tão necessária, ele aponta a necessidade de ajustes em nossas instituições defendendo a reforma política:
- Temos de construir consensos que não eliminem nossas diferenças nem apaguem os conflitos próprios das sociedades democráticas. Precisamos de um sistema político capaz de dar conta da rica diversidade de nossa vida social.
Mais adiante, dirá que não espera da oposição nenhuma forma de abdicação de seu papel, mas apenas que os dois lados busquem enxergar um pouco mais as convergências que têm. E, se alguma pode haver, é quanto à necessidade da reforma política. Mas, se houve este breve chamado à oposição, em nenhum momento Lula se refere aos partidos com os quais pretende governar. Nem mesmo ao seu, o PT.
Recordando ter sido reeleito por ampla maioria num segundo turno que deu nitidez à escolha, Lula dá uma forte estocada nos que, "do alto de seus preconceitos elitistas, tentaram desqualificar a opção popular como fruto da sedução que poderia exercer sobre ela o que chamavam de "distribuição de migalhas"". Os que assim pensam, diz ele, desconhecem o país, a capacidade do povo de escolher livremente, livre de "feitores".
O caminho da política, como disse Lula, "exige paciência, concessões mútuas, compreensão do outro". Exige também capacidade de sublimar, deixar de olhar para trás para avançar. Lula não pode passar quatro anos cutucando seus detratores.
Há quem não tenha visto nada de novo no discurso de Lula. Há quem descreia dos resultados de seu segundo mandato antes mesmo de iniciado. Ele o inicia em condições muito melhores do que as de janeiro de 2003. A economia está em um patamar superior e a base político-parlamentar é muito mais promissora. O governo está organizado, ainda que não tenha sido remontado. O cenário internacional é favorável e Lula tem a experiência acumulada, inclusive para não repetir erros. E, por fim, é com o segundo mandato que ele fechará sua biografia. Nem que só seja por isso, vai querer acertar. Embora o querer não baste.