Título: Líder de invasão à Câmara é vip na posse
Autor: Éboli, Evandro e Beck, Marta
Fonte: O Globo, 02/01/2007, O País, p. 9
Responsável pela invasão do Congresso no ano passado, que acabou com depredação das instalações da Câmara, o líder do Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), Bruno Maranhão, teve direito a cadeira especial reservada a convidados vips da Presidência na solenidade de posse no Palácio do Planalto. Maranhão fazia parte de um grupo eclético que reunia líderes sindicais, artistas, representantes dos movimentos de negros, homossexuais, estudantes e indígenas, ex-companheiros do ABC e beneficiários dos programas sociais do governo, como do Bolsa Família. Todos os convidados tiveram despesas de passagem e hospedagem pagas pelo governo.
Eles ficaram acomodados na parte externa do Palácio do Planalto, mas num lugar reservado próximo à rampa.
- Se sou da direção do partido, é natural que esteja nesta festa. O que aconteceu no Congresso foi explorado de forma equivocada pela oposição, com apoio de um setor da imprensa, que queria acabar com a nossa imagem - disse Maranhão.
Ele afirmou que vai trabalhar para voltar à executiva nacional do PT, da qual foi suspenso após a ocupação. Bruno disse que está produzindo um livro em que explicará o que ocorreu na invasão, chamado "Toda a verdade sobre ocupação do Congresso Nacional pelo MLST".
Entre os convidados estava o casal homossexual Tony Reis e David Harrad, de Curitiba, ativistas do movimento que atua para que o casamento entre gays seja aprovado pelo Congresso. Tony preside a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros. Ele contou que o cerimonial da Presidência ligou convidando e dizendo que ele poderia levar sua esposa.
- Eu disse ao cerimonial que, no meu caso, era esposo. Aí o rapaz do outro lado da linha pediu um minuto e depois veio com a notícia: tudo bem, então.
Os artistas estavam representados, entre outros, pelo sambista Nelson Sargento e pelo cantor e compositor Jorge Mautner. Sargento, apesar de estar com 82 anos e não ser mais obrigado a votar, disse que foi às urnas e deu seu voto a Lula, mas que espera mais do governo.
- Sempre votei no Lula. Mas é preciso que o governo olhe mais para os direitos do artista, como aposentadoria e outros benefícios - disse Sargento.
Dom Tomás Balduíno lamenta "continuísmo"
Dom Tomás Balduíno, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), convidado especial, criticou o governo. Para ele, o segundo mandato de Lula será "indubitavelmente um continuísmo" dos primeiros quatro anos. Ele disse estar pessimista em relação à reforma agrária.
- A manutenção do Henrique Meirelles (Banco Central) e a fritura de Marina Silva (ministra do Meio Ambiente) são sinais de que não devemos esperar grandes coisas desse Lula 2 - disse Balduíno.
Frei Chico, irmão de Lula, também participou da solenidade e disse que está esperançoso. Para ele, apesar de a oposição ter feito campanha dura e de vários setores não terem acreditado no primeiro governo do irmão, o povo deu sua resposta:
- O povo não acreditou muito nas histórias que saíram e deu resposta à altura nas urnas.
Entre os convidados, um menino de 10 anos chamado Luan Petersen, de Passo Fundo (RS), acompanhou a cerimônia a convite de Lula, de quem, segundo ele, ficou amigo desde a campanha de 2002. Luan, que disse que fala com o presidente regularmente pelo telefone, estava com o pai. Maria Ferreira da Costa, que recebe R$95 do Bolsa Família, também era convidada da Presidência da República. Ela mora em Formosa (GO) e tem oito filhos. Ela afirmou que estava muito emocionada com a festa.