Título: O homem muda o planeta
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Fonte: O Globo, 03/02/2007, O Mundo / Ciência e Vida, p. 37

Relatório diz que aquecimento global causado pela atividade humana é irreversível.

PARIS

ATerra mudou para pior e o principal responsável é o homem. O mundo hoje é mais quente, seco e sujeito a catástrofes climáticas. O relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas, divulgado ontem em Paris, revelou que o aquecimento global é irreversível e ¿muito provavelmente¿ provocado pelas atividades humanas.

O relatório, elaborado por 2.500 cientistas de 130 países, não deixa mais margem de dúvida sobre a nova realidade climática mundial: secas mais freqüentes, ondas de calor intensas e elevação do nível do mar podem perdurar por mais de mil anos, mesmo se as emissões de gases-estufa fossem totalmente suspensas hoje. O aquecimento é ¿inequívoco¿, apontam os cientistas. Nesse sentido, o documento é, na verdade, um apelo à ação política imediata para impedir que a situação se deteriore ainda mais.

¿ O relatório é um severo alerta de que o potencial impacto será mais dramático, mais rápido e mais drástico em termos de conseqüências do que imaginávamos ¿ afirmou Achim Steiner, coordenador do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas. ¿ Isso vai alterar de forma fundamental a maneira de viver em muitas partes do mundo.

Nas palavras de uma das coordenadoras do documento, Susan Solomon, ¿hoje temos uma certeza muito maior do que está ocorrendo no planeta¿ do que no relatório anterior, de 2001, e existe uma probabilidade de pelo menos 90% de que o aumento da temperatura da Terra se deva à concentração excessiva de gases do efeito estufa provocada, principalmente, pelo uso de combustíveis fósseis. No relatório anterior, esse percentual era de 66%.

Temperatura pode aumentar 6,4 graus

Segundo o painel, a temperatura média do planeta aumentará neste século de 1,8 a 4 graus Celsius nos cenários mais prováveis; podendo variar de 1,1 a 6,4 nas projeções consideradas possíveis. Pode não parecer muito, mas é importante lembrar que na última Era do Gelo o planeta era, em média, 5 graus Celsius mais frio do que hoje.

Um aumento de 1,1 grau, a melhor das hipóteses, só seria possível se houvesse uma mudança muito rápida e radical nas estruturas econômicas de forma a torná-las sustentáveis. Mas, se a população e a economia continuarem crescendo rapidamente e se for mantido o uso intensivo dos combustíveis fósseis, o aumento ultrapassaria os 6 graus. Uma elevação de 3 graus Celsius é considerada a mais provável pelos especialistas e já seria capaz de provocar mudanças bastante significativas e, possivelmente, conseqüências incontroláveis.

Seja qual for o cenário, haverá conseqüências diretas como a redução da camada de neve dos pólos a um ponto em que o Ártico poderia ficar totalmente sem gelo durante o verão. Em razão dos diversos cenários, o nível dos mares pode aumentar de 18 centímetros a 59 centímetros ¿ o que muitos especialistas consideram uma previsão muito otimista do IPCC por não levar em conta parte do degelo da Groenlândia e da Antártica.

O aumento do nível do mar representa uma grave ameaça para todas as cidades costeiras do mundo, de Xangai a Rio de Janeiro, para países localizados abaixo do nível do mar, como Bangladesh, e, sobretudo, para nações insulares. O mundo terá que lidar com a nova categoria de refugiados climáticos. Milhões de pessoas devem se deslocar.

Fenômenos climáticos extremos como ondas de calor, secas e enchentes serão cada vez mais freqüentes neste planeta alterado e os ciclones tropicais, a velocidade dos ventos e as precipitações serão mais intensas. As chuvas aumentam nas latitudes mais extremas e diminuem nas áreas subtropicais. O Brasil pode enfrentar secas mais prolongadas e a desertificação de grandes extensões de áreas tropicais.

O aquecimento da Terra não será homogêneo. Será mais agudo nos continentes do que nos oceanos e mais sentido no Hemisfério Norte do que no Sul. A Corrente do Golfo, do Atlântico Norte, responsável por tornar o clima da Europa mais ameno, deve perder um pouco de sua intensidade, embora seja improvável que desapareça.

As projeções feitas pelos cientistas se baseiam em dados climáticos coletados nos últimos anos que já apontam uma mudança considerável do clima da Terra. Dos 12 anos mais quentes dos registros ¿ que tiveram início em 1850 ¿, 11 ocorreram a partir de 1995. A elevação do nível do mar no século passado foi de 17 centímetros.

¿O aquecimento do sistema climático é inequívoco, como agora é evidente pelas observações dos aumentos das temperaturas médias do ar e dos oceanos, o derretimento generalizado de neve e gelo e o aumento global médio do nível do mar¿, ressalta o texto do relatório.

O aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera também foi constatado. Antes da Revolução Industrial, o volume era de 280 partículas por milhão. Em 2005, a concentração já era de 379 partes por milhão, com um aumento mais acelerado registrado a partir de 1995.

¿ O sinal que estamos recebendo dos cientistas é cristalino e é importante que a resposta política seja também cristalina ¿ afirmou Yvo de Boer, um dos maiores especialistas em clima das Nações Unidas.

De Boer propôs a realização de uma reunião ambiental de emergência reunindo líderes de todo o mundo para determinar uma política mais ampla e eficaz para o problema. A União Européia lidera a proposta mais forte de resposta ao problema e quer um corte de emissões de CO2 de até 30% ¿ muito acima dos simbólicos 5% determinados pelo Acordo de Kioto. O presidente da França, Jacques Chirac, foi o líder mundial a abordar o assunto ontem com mais contundência, ao propor uma revolução ecológica no planeta.

¿ Diante da urgência, já passou o momento de ações paliativas. Chegou a hora de uma revolução no verdadeiro sentido do termo: uma revolução das consciências, da economia e da ação pública ¿ afirmou. ¿ Se aproxima o dia em que o desajuste climático fugirá totalmente do controle; estamos no limiar do irreversível.

Chirac participou da abertura da conferência internacional ¿Cidadãos da Terra¿, cujo principal objetivo era propor a criação de uma Organização da ONU para o Meio Ambiente, que teria mais força política do que o atual Programa de Meio Ambiente.

¿ É mais urgente do que nunca que a comunidade internacional se concentre em negociações sérias para um novo acordo internacional para deter o aquecimento ¿ disse o comissário europeu de Meio Ambiente, Stavros Dimas.

EUA dizem que poluem pouco

Os EUA, que são contrários a metas de redução de emissões embora sejam responsáveis pelo lançamento de 1/4 dos gases poluentes, defenderam um ¿debate global¿.

¿ Contribuímos pouco (com as emissões) se compararmos com o resto do mundo ¿ afirmou o secretário de Energia, Sam Bodman, que, no entanto, admitiu que o aquecimento é causado pelo homem, o que era questionado pelo governo Bush há até bem pouco tempo.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou ontem os países ricos, dizendo que eles assinam tratados mas não têm coragem de enfrentar as indústrias poluidoras.

¿ Estou cuidando do nosso terreiro ¿ disse. ¿ (É preciso que) eles cuidem do terreiro deles.