Título: Dólar fecha a R$2,09 e analistas prevêem R$2
Autor: Eloy, Patricia
Fonte: O Globo, 06/02/2007, Economia, p. 21

Moeda americana recua 0,52%. Risco-Brasil atinge seu menor valor histórico, ao chegar a 180 pontos centesimais

Patricia Eloy

RIO e BRASÍLIA. A entrada de recursos estrangeiros e o forte fluxo de dólares captados por empresas brasileiras no exterior empurraram a cotação da moeda americana para menos de R$2,10 no encerramento dos negócios, o que não ocorria há nove meses. O dólar recuou 0,52% ontem, para R$2,094, e, segundo especialistas em câmbio consultados pelo GLOBO, pode se aproximar ¿ ou mesmo ficar abaixo ¿ dos R$2 a curto prazo. Na sexta-feira, a moeda chegou a valer R$2,08.

A forte queda do risco-Brasil, indicador da confiança dos investidores estrangeiros no país, que atingiu ontem recorde histórico de 180 pontos centesimais, também está por trás da entrada de dólares.

Ontem, o Banco Central (BC) voltou a comprar dólares, a R$2,096, mas a ação não surtiu efeito. Para Sandra Utsumi, economista-chefe do BES Investimento, apesar das atuações diárias do BC, a tendência do dólar a curto prazo continua sendo de queda, devido à diferença entre os juros no Brasil (ainda elevados) e no mercado internacional (considerados baixos):

¿ Qualquer estratégia do BC para tentar reduzir o fluxo de dólares no mercado será enxugar gelo. Não dá para segurar o dólar acima de R$2,10 a curto prazo. E não é possível conter essa queda sem riscos. Se ele compra dólares, injeta reais na economia e, para retirar esse excedente, vende títulos públicos que rendem juros altíssimos. Enquanto isso, os dólares que engordam as reservas internacionais do país são aplicados em títulos do Tesouro dos EUA, que têm baixa rentabilidade. Não compensa nem faz sentido.

Desde outubro de 2002, moeda já caiu quase 50%

Para Utsumi ¿ que projeta um dólar a R$2,25 em dezembro, mas já admite revisar as estimativas ¿, um equilíbrio no fluxo cambial poderia ser conseguido, por exemplo, com uma queda nas tarifas de importação, que estimulariam as compras das empresas. Desde outubro de 2002, quando atingiu a máxima de R$3,99, a moeda americana acumula queda de 47,52%.

Nathan Blanche, sócio da consultoria Tendências, também defende mudanças nos impostos sobre as importações. Para ele, não fossem as intervenções diárias do BC, o dólar estaria hoje abaixo dos R$2:

¿ Mas quem determina a taxa de câmbio é menos o BC e mais as diferenças nas taxas de juros cobradas no Brasil e no exterior e a taxa do risco-Brasil.

Blanche explica que o cupom cambial ¿ taxa de juros em dólar negociada na Bolsa de Mercadorias & Futuros e que mede a rentabilidade dos ativos do país, descontada a variação cambial ¿ com vencimento em janeiro de 2008 está em 5,81% ao ano. Já a taxa de referência da economia americana (o Fed Fund) é de 5,40% ao ano.

¿ Se o governo quer, de fato, uma cotação um pouco mais alta, tem de abrir mais a economia e reduzir os impostos sobre importação. É engodo ficar culpando os juros altos ¿ afirma Blanche, que estima um dólar a R$2,13 no fim de 2007.

Já Cecília Hoff, economista da UFRJ que também apóia a redução das tarifas de importação, acredita que o dólar pode ter atingido um limite, mas não descarta novas perdas:

¿ Ano passado, todos achavam um dólar a R$2,15 impossível. Não me surpreenderia se chegasse perto de R$2.

Balança comercial acumula superávit de US$3,042 bi

E os dólares continuam entrando. Em apenas dois dias úteis, a diferença entre exportações e importações na primeira semana de fevereiro foi de US$549 milhões, com vendas de US$1,322 bilhão e compras de US$773 milhões. A balança comercial brasileira acumula superávit de US$3,042 bilhões este ano, resultado de exportações de US$12,285 bilhões e importações de US$9,243 bilhões.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, a média diária exportada, de US$661 milhões, aumentou 36% em relação a fevereiro de 2006. Já a média diária importada foi de US$386,5 milhões, 16,9% a mais.

Com relação à expectativa para os juros, o mercado, segundo o boletim Focus, do BC, divulgado ontem, prevê que a Selic feche o ano a 11,5% ¿ 0,25 ponto a menos que a estimativa anterior. Essa tranqüilidade se deve à divulgação, na semana passada, da última ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), quando o BC reduziu a Selic para 13% ao ano. Para a inflação, as estimativas recuaram de 4,09% para 4,07%, ainda bastante abaixo do centro da meta governo, de 4,5%.

COLABORARAM Eliane Oliveira e Henrique Gomes Batista