Título: Paulo Nogueira no FMI é vitória de Mantega
Autor: Beck, Martha e Novo, Aguinaldo
Fonte: O Globo, 24/02/2007, Economia, p. 25

Crítico da política atual do BC e mentor da moratória de 1987, economista terá por objetivo ampliar influência do país

Martha Beck e Aguinaldo novo

BRASÍLIA e SÃO Paulo. Indicado pelo Brasil para ocupar uma diretoria-executiva do Fundo Monetário Internacional (FMI), o economista Paulo nogueira Batista Jr. terá o desafio de ampliar no organismo a influência do país, que tem a estratégia de se consolidar como referência internacional do grupo de nações em desenvolvimento e porta-voz dos anseios das mais pobres. Crítico da política monetária conduzida pelo Banco Central (BC) e do próprio FMI, Paulo nogueira era assessor do Ministério da Fazenda quando o governo Sarney decretou a moratória da dívida externa, em fevereiro de 1987. Sua nomeação foi entendida no mercado como uma vitória do ministro Guido Mantega, visto como "desenvolvimentista".

O cargo, remunerado a US$20 mil mensais além de benefícios, envolve a representação não apenas do Brasil, mas de outros oito países: Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago. Eles ainda precisam aprovar a indicação brasileira, que é tradicionalmente aceita. A regra é que o diretor seja brasileiro e o vice, colombiano, pois representam os dois maiores países. A votação será em abril, após reunião de primavera do FMI em Washington.

Técnicos do governo destacam que Mantega escolheu Paulo nogueira pela afinidade de idéias. Eles foram colegas na Fundação Getulio Vargas (FGV), onde Paulo nogueira permaneceu. E o economista foi ainda conselheiro de Mantega na elaboração do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Alencar: economista seria "excelente futuro ministro"

A primeira sondagem do governo a Paulo nogueira aconteceu em dezembro, e não foi para o FMI. Após uma palestra, o economista se encontrou com Mantega, então envolvido com a preparação do PAC. Segundo relato de um colega que acompanhou a conversa, Mantega teria sido direto:

"Paulo, você quer ser diretor no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento)?"

Mantega se antecipava à saída do ex-diretor do Tesouro Joaquim Levy, que trocou o cargo de vice-presidente do BID pela Secretaria de Fazenda do Rio.

"Agradeço o convite, mas não quero ficar aprovando construção de pontes na Costa Rica. Aceitaria se fosse para o FMI", teria devolvido Paulo nogueira.

O convite para o FMI veio às vésperas do carnaval. Paulo nogueira vai substituir o ex-diretor do BC Eduardo Loyo, que ocupou o cargo por dois anos por indicação do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. Segundo nota oficial, Loyo deixou o posto por motivos pessoais e volta ao país para "novos projetos profissionais".

O mais longevo a ocupar a diretoria do grupo do Brasil foi o economista Alexandre Kafka, que permaneceu no cargo por 30 anos. Em 1998, Murilo Portugal, economista ortodoxo responsável pela negociação dos acordos de ajuda financeira da instituição ao Brasil, assumiu o posto. Convidado para ocupar a secretaria-executiva do Ministério da Fazenda na gestão de Palocci, passou o bastão a Loyo.

Além da simpatia de Mantega, Paulo nogueira sempre teve o apoio do vice-presidente, José Alencar, que já se referiu a ele como um "excelente futuro ministro" do governo Lula.

País quer criar "cheque especial" para emergentes

Com 50 anos, Paulo nogueira Batista Jr. já ocupou cargos importantes no governo. Além de assessor da Fazenda para Assuntos da Dívida Externa entre 1986 e 1987, ocupou a secretaria especial de Assuntos Econômicos do Planejamento, de 1985 a 1986, na gestão de João Sayad.

Segundo técnicos da área econômica, o Brasil vem trabalhando junto a outras economias emergentes dentro do FMI para criar uma linha emergencial com menos exigências para o saque de recursos. A idéia é instituir uma espécie de cheque especial, a ser acessado aos primeiros sinais de crise econômica derivada de turbulências financeiras, impedindo que os países cheguem ao fundo do poço para depois ter socorro do FMI.