Título: Demora e resultados
Autor: Cruvinel, Tereza
Fonte: O Globo, 28/02/2007, O Globo, p. 2

Nesta enfadonha reforma ministerial, o presidente Lula esticou o tempo o quanto quis, foi ambivalente, arrevesado, dissimulado e tudo o mais. Mas, resistindo às investidas dos partidos, que ontem começaram a capitular, preservou, pelo menos em três pastas - Educação, Saúde e Cidades - a prerrogativa de indicar técnicos qualificados para a execução dessas políticas públicas.

A última ducha fria, ele despejou sobre os partidos com as declarações de segunda-feira no programa "Café com o presidente", ao dizer que as mudanças seriam poucas e que, à exceção do PDT, todos já estavam representados no governo. Não será bem assim, mas os partidos entenderam o recado. Ontem, o PT e o PMDB da Câmara, que lhe vinham criando mais problemas, entregaram os pontos.

Os peemedebistas resolveram retirar os nomes de deputados que haviam indicado para a Saúde. Bater cabeça com o presidente é mau negócio. Lula já deixara clara sua preferência por José Gomes Temporão. Agora, está livre para nomeá-lo. Ele tem grande prestígio em seu meio, tanto pela formação como pela experiência bem-sucedida à frente do Instituto Nacional do Câncer, que pegou numa crise, justamente porque fora entregue a político. Um presidente precisa levar em conta, na montagem do ministério, a busca das condições políticas para bem governar, vale dizer, a maioria parlamentar. Mas não pode, por isso, negligenciar a qualidade do ministros. A bancada da Câmara diz que Temporão não a representa e que até há pouco tempo ele era até filiado ao PCdoB. Teria ido para o PMDB para virar ministro, com a cumplicidade do governador Sérgio Cabral. Esperam agora os peemedebistas uma outra pasta, além de Integração Nacional, se vier mesmo a ser oferecida ao deputado Geddel Vieira Lima. Isso Lula terá que resolver, se quiser mesmo o PMDB inteiro, evitando, se possível, entrar na disputa interna do partido. Ontem, houve fortes reações à atuação do ministro Hélio Costa como cabo eleitoral de Nelson Jobim.

Capitulou também o PT, ao desistir de brigar pela indicação de Marta Suplicy para a pasta de Cidades. O PT vai apenas sugerir o nome dela, mas sem mencionar a pasta. Faz muito bem. Onde já se viu o partido do presidente da República fazer lista de cargos? Era o que Lula queria. Ele vê no atual ministro, Márcio Fortes, uma grande solução em seu relacionamento com um partido complicado como o PP. Fortes é um técnico experiente, já tendo servido como secretário-executivo em pelo menos quatro ministérios de diferentes governos. As bancadas gostam dele e nunca houve escândalo na pasta, que concentra um quinto dos investimentos do PAC (cerca de R$100 bilhões em habitação e saneamento em quatro anos). Tirá-lo, para atender ao PT, poderia resultar na escolha de algum pepista problemático.

Na Educação, Lula já decidira manter outro técnico, ainda que filiado ao PT. Está satisfeito com Fernando Haddad, que hoje deve lhe apresentar um programa ambicioso para requalificação do ensino. Outro técnico com DNA político que lhe agrada muito é Silas Rondeau, indicado por Sarney para Minas e Energia. É competente e dedicado e atende à conveniência política sem criar problemas.

Pode-se dizer que, para refugar pressões partidárias um presidente não precisa demorar tanto. Pode, mas aí entra o estilo decisório. O de Lula é sinuoso, lento, esquisito mesmo. Mas neste caso, o saldo foi bom para a gestão. Desde que ele resolva bem as pendências.