Título: Gaza registra piores índices de pobreza
Autor: Malkes, Renata
Fonte: O Globo, 06/03/2007, O Mundo, p. 25
Onda de violência é a maior registrada nos últimos 57 anos, segundo levantamento da ONU.
TEL AVIV. A Faixa de Gaza registrou em 2006 a maior taxa de pobreza e criminalidade de sua História. Um ano após a ascensão do governo Hamas e do início do embargo da ajuda humanitária internacional, pelo menos 87% dos palestinos de Gaza vivem abaixo da linha de pobreza, e o desemprego ultrapassou a marca de 60% da população economicamente ativa. De acordo com levantamento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), além do aumento do número de assassinatos, roubos e assaltos, a sociedade palestina teve ainda, pela primeira vez, casos de estupros e ataques a mulheres, crianças e idosos ¿ na maior onda de violência já registrada nos últimos 57 anos.
Os dados foram anunciados no último fim de semana, depois de coletados pela ONU informalmente junto à polícia palestina. Segundo o diretor-geral do Pnud em Gaza, Khaled Abed el-Shafi, a deterioração da estrutura socioeconômica começou em 2005, com a retirada unilateral israelense de Gaza. Pelo menos oito mil postos de trabalho se perderam com o desmonte das colônias judaicas, e o parque industrial de Erez, na fronteira com Israel, foi parcialmente destruído, deixando milhares sem emprego.
A população cada vez mais pobre faz com que a emigração atinja índices sem precedentes. Dezenas de milhares de palestinos de classe média já abandonaram a Faixa de Gaza em busca de oportunidades em países árabes, e as embaixadas européias não têm conseguido atender à grande demanda de pedidos de asilo.
¿ A classe média tenta fugir e quem fica passa fome. A Faixa de Gaza transformou-se na maior prisão do mundo. Com as fronteiras fechadas por Israel, Gaza vive isolada. Se antes a sociedade palestina era marcada pela solidariedade, a fome fez com que as pessoas partissem para o crime numa tentativa desesperada de sobreviver. Houve mais crimes no último ano do que em toda a História. Nem mesmo nos piores dias de ocupação israelense estivemos numa situação tão alarmante ¿ disse El-Shafi.
Haniyeh e Abbas discutem Ministério do Interior
Outro relatório, apresentado ontem pelo Programa Mundial de Alimentos da ONU, mostra que em Gaza 80% da população dependem de ajuda humanitária para conseguir uma cesta básica de alimentação. Na Cisjordânia, pelo menos 34% sofrem de ¿insegurança alimentar¿, definição das Nações Unidas para famílias incapazes de produzir ou ter acesso à alimentação mínima exigida para uma vida saudável.
A crise política que só acentuou a pobreza, no entanto, ainda parece longe do fim. Depois de encontrar-se no domingo em Gaza com o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, do Fatah, o premier Ismail Haniyeh, do Hamas, disse que um novo Gabinete só deve ser anunciado ¿no fim da semana que vem¿.
Tanto o Hamas como o Fatah ainda não chegaram a um acordo sobre a pasta do Interior, considerada a mais importante da administração da ANP por ser a responsável pelas Forças Armadas palestinas. O Hamas defende o nome de Hamouda Jerwan, ex-filiado do Fatah, mas o presidente Abbas é contrário à nomeação, devido ao suposto envolvimento de Jerwan com militantes armados do Hamas que participaram dos confrontos contra o Fatah nas ruas de Gaza. De acordo com o porta-voz do Hamas, Fawzi Barhoum, o impasse deve ser resolvido nos próximos dias, mas o grupo fará de tudo para convencer o presidente a acatar a indicação.
¿ Os dois lados conseguiram recuperar a confiança após o encontro em Meca, mas trata-se de uma pasta importante que deveria ficar nas mãos do Hamas, que investiu e concentrou forças nos últimos meses. Assim seria possível controlar e reunir todos os grupos armados da região, pois nossa segurança está numa situação miserável ¿ disse Barhoum ao GLOBO.
Ontem, por pressão do Congresso, o governo americano anunciou que vai rever o plano de repassar US$86 milhões para equipar as forças de segurança leais a Abbas. Segundo a Casa Branca, a liberação do dinheiro dependerá de novas avaliações.