Título: A 'fábula' de Palocci sobre o poder
Autor: Alvarez, Regina
Fonte: O Globo, 13/03/2007, O País, p. 3
Ex-ministro lança "Sobre formigas e cigarras" e diz que Lula cogitou lançá-lo candidato à sua sucessão.
Um ano após deixar o comando do Ministério da Fazenda, alvejado pela crise política que culminou com a quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, o deputado federal Antonio Palocci (PT-SP), eleito com 152.246 votos, tenta se recolocar como interlocutor respeitado no debate econômico. Chega hoje às principais livrarias do país o livro "Sobre formigas e cigarras" (Editora Objetiva), no qual Palocci relata bastidores da sua passagem pelo governo e reforça sua posição sobre a condução da economia.
O ex-ministro conta que, em julho de 2005, foi sondado por Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para ser o candidato do governo à Presidência da República, porque Lula, na época, não queria concorrer à reeleição. Na ocasião, segundo Palocci, Carvalho teria dito que havia dois nomes em discussão, o dele e o do então ministro Ciro Gomes (PSB), mas o petista era o preferido.
"O presidente está realmente pensando em não ser candidato. E nós vemos o seu nome como opção. O Ciro Gomes também é uma alternativa , mas percebemos a preferência pelo seu nome", disse Gilberto Carvalho, de acordo com o relato de Palocci.
O ex-ministro conta que recusou a oferta, argumentando que essa alternativa poderia prejudicar a ele próprio e ao governo: "Se o presidente não quiser mesmo disputar a reeleição, é melhor vocês pensarem no Ciro - atalhei, com firmeza", diz Palocci no livro. "Não quero de jeito nenhum, e por vários motivos, mas principalmente porque o trabalho que estou fazendo na economia é totalmente incompatível com a candidatura".
Essa revelação e outros bastidores, desde a fase de formação do governo Lula, recheiam as 254 páginas, mas Palocci põe o foco na política econômica e enaltece as realizações de sua gestão, com ênfase para o ajuste fiscal e o empenho em garantir um superávit primário vigoroso nas contas públicas.
O ex-ministro também destaca as condições em que Lula encontrou a economia no fim de 2002, eleito mas ainda não empossado, afirmando que a situação era pior do que se esperava. Ele relata um diálogo com Lula, no qual teria afirmado que a situação era gravíssima, e até usado a expressão "país quebrado".
Afagos em Dirceu e Dilma, elogios a Lula
"Era voz corrente que, para acalmar os ânimos do mercado, qualquer compromisso assumido pelos candidatos deveria, necessariamente, fazer uma referência direta a um superávit de pelo menos 4% do PIB. Lula , porém era avesso à idéia de se comprometer com números antes da hora", relata o ex-ministro sobre a postura de Lula na ocasião.
Palocci dá a sua versão para a origem da crise que resultou na sua saída do cargo e para o episódio da quebra do sigilo do caseiro Francenildo, negando participação no episódio. Ele se declara inocente e diz que o ministério e a Caixa Econômica nunca conseguiram identificar o responsável pelo vazamento das informações, e que agiu dentro da lei.
"A discussão sobre a origem do vazamento desses dados talvez nunca se esgote (...)", diz num trecho do livro.
Ele descreveu todo o trâmite de documentos relacionados a Francenildo no ministério e na Caixa como procedimentos de rotina, afirmando que era comum seus assessores relatarem ao ministro os casos mais delicados e pedirem orientação de como agir. Mas, em seguida, Palocci faz um mea-culpa, afirmando que "no caso do caseiro, até hoje me questiono se não deveria, em função das previsíveis conseqüências de um vazamento, ter dado maior atenção e assegurado um cuidado redobrado com o fluxo daquela informação". No fim desse capítulo, se desculpa por suas falhas.
Embora fale em "fogo amigo", as referências a integrantes do governo que estiveram em posições antagônicas às dele, como o também ex-ministro José Dirceu (Casa Civil), são amenas e elogiosas. Assim ele se refere à atual chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que classificou de rudimentar a proposta da área econômica sobre o ajuste fiscal de longo prazo, abortando a discussão no governo. Palocci atribui a culpa pelo fato de o debate não ter prosperado ao senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), a quem vincula a expressão "ovo da serpente".
Em relação a Lula, o livro é só elogios. Exalta a sua capacidade política e de liderança. E deixa claro que o presidente é o verdadeiro condutor da política econômica, relatando um episódio para provar isso. Disse que foi Lula, e não o Conselho Monetário Nacional (CMN), quem fixou a meta de inflação em 4,5% para 2005, que depois causou polêmica por ser considerada muito baixa por integrantes do governo, como o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), impedindo a queda dos juros e o crescimento da economia, de apenas 2,3% em 2005.
Segundo Palocci, a equipe econômica propôs a Lula uma meta de 5%, mas ele queria 4%, e, depois de muita insistência, concordou com 4,5%. Os integrantes do CMN receberam o prato feito, conta.