Título: Evolução e subserviência ::
Autor: Barbosa, Rubens
Fonte: O Globo, 13/03/2007, Opinião, p. 7

A segunda visita do presidente Bush, em poucos meses, e a de Lula aos EUA no final do mês, oferecem excelente oportunidade para analisar alguns aspectos da inserção externa do Brasil e dos objetivos da política externa brasileira.

Um dos grandes desafios atuais para o Brasil, no plano externo, é o de ajustar as linhas de sua ação política, com uma visão de médio e longo prazos, às novas realidades do cenário internacional e regional, em um mundo em rápida e profundas transformações.

O governo brasileiro, a partir de uma visão de mundo equivocada, identificou e definiu seu reposicionamento na ordem mundial dando prioridade ao relacionamento com os países em desenvolvimento do Sul. Nos últimos 4 anos, e até 2010, as prioridades na área externa foram e continuarão a ser as relações Sul-Sul, com prioridade para a América do Sul e a África, segundo reiteradas declarações do ministro Celso Amorim.

Essas prioridades - importantes e que devem continuar a ser perseguidas - não têm levado e não levarão, contudo, o Brasil a aproveitar plenamente as oportunidades que se apresentam em decorrência do cenário externo extremamente positivo, do expressivo crescimento da economia mundial e do comércio exterior, puxados pelos EUA e pela China.

Os resultados excelentes das exportações brasileiras parecem confirmar o acerto da política externa, mas, na realidade, disfarçam perdas de espaço nos mercados maiores e mais dinâmicos do mundo.

Washington vê o Brasil e o presidente Lula como um fator moderador em uma região dividida por crescente antiamericanismo de parte de alguns países como Cuba, Venezuela e Bolívia. As autoridades norte-americanas consideram excelentes as atuais relações e declaram retoricamente seu interesse em cooperar e aprofundar as relações bilaterais. O Brasil é visto como "uma potência regional prestes a se tornar uma potência mundial", como declarou Condoleezza Rice.

As visitas do presidente Bush e de Lula reforçam essa percepção com o pleno endosso do governo do PT e, colocadas em perspectiva histórica, serão vistas como mais simbólicas do que concretas em termos de resultados. Com reduzido apoio interno, Bush tem pouca capacidade de fazer qualquer concessão em termos de comércio, como ficou evidenciado na recusa de examinar a eliminação de medidas restritivas que afetam produtos brasileiros, como o etanol. No início do segundo mandato de Lula, não é realista prever uma modificação significativa de curso na política externa.

Na ausência de uma atitude pró-ativa do Brasil, os EUA propuseram, e começa a se esboçar, uma agenda positiva com foco na energia. O tema é de interesse tanto dos EUA, pela prioridade de Washington em diversificar suas fontes de suprimento energético e reduzir sua dependência do petróleo, quanto do Brasil, como um dos principais países no mundo com capacidade de ampliar sua produção de energia renovável.

Os resultados dessas visitas ficarão visíveis a médio prazo, na medida em que os dois governos derem continuação às decisões tomadas pelos dois presidentes ao final dos encontros no Brasil e nos EUA, no fim do mês, quando o presidente Lula for a Camp David, repetindo FHC.

Sem alterar a linha central da política externa, contudo, alguns sinais positivos podem ser notados na retórica oficial em relação às economias desenvolvidas, em especial, ao maior e mais dinâmico mercado global, os EUA, colocadas, até aqui, em segundo plano.

Noticiou-se que o ministro Amorim teria "classificado de mito as afirmações de que o Brasil passaria a dar mais ênfase nas relações com os Estados Unidos e a Europa". "Não sei quem criou esse mito", acrescentando que isso "é preocupação de embaixadores aposentados". Mais recentemente, depois da grande exposição da política externa na mídia e no Congresso, e sensibilizado pela movimentação positiva do governo de Washington, Amorim teria declarado que o Itamaraty está buscando a "criação de uma relação renovada" e "mais íntima" com os EUA.

A visita de Bush ajudou o governo brasileiro a dar nova ênfase ao relacionamento com os EUA. Essa evolução é bem-vinda e não pode, nem deve, ser considerada subserviência aos EUA, como é classificada injustamente pelo governo a atitude dos que defendem essa "renovação" na política externa.

Afinal, todos nós estamos procurando defender o interesse nacional, cada um com sua visão de mundo.

RUBENS BARBOSA é consultor e presidente do Conselho de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).