Título: Bolha imobiliária nos EUA preocupa mercados
Autor: Eloy, Patricia
Fonte: O Globo, 13/03/2007, Economia, p. 20
AMEAÇA EXTERNA: Apesar da turbulência, bolsa fecha em alta de 0,26% no Brasil, risco-país recua e dólar cai.
Empresa americana líder em empréstimos de alto risco pode fechar as portas. Investidores temem recessão.
RIO e BRASÍLIA. Os riscos de falência da maior empresa independente de concessão de crédito imobiliário dos Estados Unidos - New Century Financial - acenderam ontem luz amarela sobre os mercados globais, em novo alerta sobre a possibilidade de uma desaceleração mais forte que o esperado na maior economia do planeta. As bolsas americanas chegaram a cair mais de 0,30% pela manhã e a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) recuou 0,65% no início dos negócios, em meio a especulações sobre a chamada estagflação (recessão com inflação alta). No fim do dia, porém, os principais mercados fecharam em alta. Na Europa, porém, por causa da diferença de fuso horário, as bolsas caíram: Londres registrou baixa de 0,19% e Frankfurt de 0,02%.
O grande temor dos investidores é de que as empresas do setor imobiliário - especialmente as de empréstimos de alto risco - que aqueceram a economia nos últimos anos, enfrentem cada vez mais dificuldades e fechem as portas quando a inflação está acima da faixa de conforto do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), entre 1% e 2%. No pior cenário, se os preços continuarem pressionados, o Fed poderá subir os juros, o que reduziria ainda mais o ritmo de expansão dos Estados Unidos.
A New Century Financial trabalha com empréstimos de segunda linha (no jargão do mercado, subprime), com menos garantias e, portanto, mais risco. Ontem, a companhia informou que passa por problemas financeiros e que seus credores, entre eles, Citigroup, Goldman Sachs, Morgan Stanley e Credit Suisse, pretendem suspender pagamentos. Com isso, as ações da New Century negociadas no chamado pré-mercado (antes da abertura oficial das bolsas), caíram 48% e tiveram seus negócios suspensos. Apenas este mês, os papéis caem 89%.
"A empresa e suas subsidiárias não têm liquidez suficiente para satisfazer suas obrigações nos contratos de financiamento vigentes", informou a companhia em extenso comunicado ao órgão regulador do mercado americano. A companhia, que enfrenta um aumento nas taxas de inadimplência, precisa de mais de US$8 bilhões para quitar seus empréstimos, mas tem menos de US$60 milhões em caixa.
Apesar das preocupações, os mercados mantiveram ontem a trajetória de recuperação das perdas registradas nas duas semanas anteriores. Nos EUA, a queda nas cotações do petróleo e a alta das ações de tecnologia fizeram com que os índices Nasdaq e Dow Jones subissem 0,62% e 0,34%, respectivamente. A Bovespa acompanhou o movimento e subiu 0,26%. O dólar caiu pelo quinto dia consecutivo: 0,52%, cotado a R$2,088. Já o risco-Brasil recuou 0,53%, para 189 pontos centesimais.
Focus: analistas aumentam projeção de investimentos
O mercado financeiro voltou a revisar para cima sua expectativa de ingresso de investimento estrangeiro direto no Brasil em 2007. Segundo o boletim semanal Focus, do Banco Central, economistas prevêem que US$18 bilhões serão investidos no setor produtivo até dezembro - US$550 milhões a mais em relação à estimativa anterior e US$1 bilhão acima do projetado no início de fevereiro.
Pela 28ª semana consecutiva, a projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) ficou estacionada em 3,5% - um ponto percentual abaixo da estimativa do governo. E, pela sexta semana seguida, o mercado baixou a previsão para a inflação medida pelo IPCA: a expectativa é de que termine 2006 em 3,87%. As projeções sobre a taxa básica de juros (Selic) ficaram estáveis em 11,5% ao ano em dezembro.
COLABOROU: Flávia Barbosa