Título: Quem assume é um movimento de 20 anos
Autor: Guedes, Ciça
Fonte: O Globo, 16/03/2007, O País, p. 8

MUDANÇA NO TIME: Novo ministro diz que mudanças no modelo de gestão de hospitais começarão nas unidades do Rio.

Sanitarista afirma que vai combater nomeação política exigindo qualificação e prova de lisura na vida pública.

Normalmente sisudo, o novo ministro da Saúde estava alegre ontem. E até riu quando perguntado sobre a reação dos parentes, em Portugal, à sua nomeação. "Eles estão tomando vinho do Porto para comemorar". Professor da Fiocruz, Temporão, de 55 anos, que é secretário de Atenção à Saúde desde 2005, esperou quase quatro meses de idas e vindas na indicação de seu nome para a pasta, por causa das exigências de parte do PMDB. Disse que vai combater as nomeações políticas e que a Prefeitura do Rio não está cumprindo seu papel no combate à dengue. O governador Sérgio Cabral, que brigou por seu nome e irá à sua posse hoje, também comemorou: "É fato da maior importância para o Rio".

Ciça Guedes

O apoio a seu nome foi unânime entre os profissionais da saúde. O que o senhor tem a dizer a eles?

JOSÉ GOMES TEMPORÃO: Minha vida profissional se confunde com a construção do Sistema Único de Saúde (SUS). No período da polêmica do nomeia técnico, nomeia político, tive plena consciência de que não era uma escolha pessoal. Não é um médico que assume o ministério, é um movimento de idéias e força política acumuladas em 20 anos. Aos que viram no meu nome esperança e otimismo, digo que essa é minha visão também.

Sanguessugas, vampiros, queixas de mau atendimento, por onde o senhor começará a atacar os problemas da saúde?

TEMPORÃO: O governo tem uma política, que foi pactuada com estados e municípios no fim de 2005. Neste momento, milhões de pessoas estão sendo atendidas em sua necessidades. Mas há fragilidades. A morte da jovem de 17 anos, grávida, e de seu bebê, no Rio, foi um exemplo trágico, mas didático, do que não pode acontecer. Fui checar: ela fez todo o pré-natal, mas não sabia onde iria ter o filho, nem com que médico. O sistema falhou. Na última consulta de pré-natal ela deveria saber onde iria ter a criança e quem seria o médico. Isso evidencia um problema estrutural, de qualidade, e também assistencial.

Desde José Serra, nenhum ministro da Saúde deixou sua marca. Humberto Costa é lembrado pelos escândalos, e os que o sucederam, sequer são lembrados. Qual será sua marca?

TEMPORÃO: Há inovações que quero trazer, mas eu gostaria que, ao final da minha gestão, a população se orgulhasse do sistema de saúde. O que quero deixar como marca é a efetiva qualificação da atenção básica, expandi-la para regiões metropolitanas, fazer com que seja de fato a porta de entrada do SUS. Também temos que melhorar a gestão, a qualidade do gasto. Estamos construindo, com o Ministério do Planejamento, um novo modelo jurídico-institucional para que os hospitais públicos, que são ligados à administração direta, possam funcionar com mais eficiência sem ter que lançar mãos da fundações privadas, que o TCU já condenou. E vamos começar pelo hospitais do ministério no Rio e os do Ministério da Educação.

Como o senhor vai enfrentar a pressão por nomeações políticas, tão forte na Saúde?

TEMPORÃO: Vou usar um critério simples: tem que ter currículo irretocável, ser qualificado, comprovar larga experiência na administração pública e provar que nunca teve problemas éticos, morais ou legais no exercício da função. Essa foi minha marca nos lugares onde trabalhei até hoje. E quero que me cobrem resultados.

O Rio vive um surto de sarampo e a dengue voltou, até com morte. Estamos a quatro meses do Pan. O que sera feito?

TEMPORÃO: Acompanho isso de perto. Mas o SUS é um sistema construído a seis mãos. O ministério tem funções claras, de financiamento, capacitação, apoio técnico. A execução do controle do vetor, da vigilância epidemiológica, é do município. O ministério tem repassado ao município do Rio, regularmente, os recursos necessários. Temos um problema de gestão aí.

E a quebra de patentes dos remédios do coquetel de Aids?

TEMPORÃO: Tem muito tititi nessa questão. Primeiro tem que esgotar as possibilidades de negociação com os laboratórios produtores, e desenvolver nossa capacidade de pesquisa e inovação. Não é heresia falar em quebra de patente ou licenciamento compulsório, está nos tratados internacionais que o Brasil assinou, há salvaguardas para proteger as necessidades dos países. Mas não creio que já tenhamos chegado a essa situação.