Título: Ex-empregados como laranjas
Autor: Gripp, Alan
Fonte: O Globo, 17/03/2007, O País, p. 3
Documento mostra que futuro ministro da Agricultura usou pobres para operação financeira.
Um documento bancário de apenas uma folha é apontado pelo Ministério Público como a principal prova de que o deputado Odílio Balbinotti (PMDB-PR), indicado para assumir o Ministério da Agricultura, usou ex-empregados de sua empresa de produção de sementes de soja, em Mato Grosso, como laranjas numa operação financeira. Trata-se de um demonstrativo emitido pelo Banco do Brasil, no início de 2004, para que o funcionário de escritório Sidiney Rodrigues da Silva, de 37 anos, declarasse o seu Imposto de Renda. Ao recebê-lo, Sidiney, que ganha em torno de R$1 mil por mês, levou um susto. Descobriu que figurava, juntamente com outras 13 pessoas, na lista de sócios da empresa para a qual trabalhou. E pior: tinha uma dívida de R$1.743.615,09.
O documento, obtido pelo GLOBO, deixa o futuro ministro da Agricultura em situação delicada. Além de Sidiney, o papel revela que está entre os donos da empresa o vigilante Gilson da Silva, de 34 anos, que trabalha como segurança de um banco por pouco mais de R$800 por mês. Localizado pelo GLOBO, Gilson contou que, no início de 2004, foi a uma agência do Banco do Brasil pedir empréstimo de R$500 para pagar pequenas dívidas - e descobriu que elas, na verdade, eram 40 mil vezes maiores, alcançando cerca de R$2 milhões.
- Tomei um susto. Apareceram lá uns R$2 milhões (de dívida). Fiquei preocupado porque depois vêm os caras da Receita em cima de mim. Eu aparecia movimentando um dinheirão - contou.
Sócios desde 1996, mas sem saber
Sidiney e Gilson vivem no município de Barboza Ferraz, no Paraná, onde Odílio Balbinotti foi prefeito duas vezes (1977/1983 e 1989/1993) e onde começou a construir o seu império da soja. Em 1996, eles foram convidados por encarregados da empresa do deputado em Alto Garça, no sul de Mato Grosso, para trabalhar na colheita da safra. Sidiney fazia serviços burocráticos e Gilson, que ficou apenas 38 dias, ensacava as sementes. Desde então, os dois viviam no Paraná, sem saber que eram, tecnicamente, sócios de Balbinotti.
Ao descobrir a dívida em seu nome, Gilson prestou queixa na delegacia de Barboza Ferraz. Sidiney procurou o Ministério Público do Paraná. De posse dos documentos, o promotor de Justiça Marcos José Porto Soares enviou um ofício para o MP de Mato Grosso e outro para o procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, em Brasília, pelo fato de Balbinotti ser deputado e ter foro privilegiado. Antônio Fernando decidiu pedir abertura de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), que investiga se o parlamentar cometeu falsidade ideológica e falsificação de documentos.
Sidiney, que trabalha em uma cooperativa agrícola em Barboza Ferraz, não foi encontrado. Uma cunhada disse que ele confirmou a denúncia ao Ministério Público do Paraná.
- Ele é um coitado, jamais poderia ter uma empresa - disse ela, que pediu para não ser identificada.
Segundo as investigações, Balbinotti teria usado o nome de seus empregados para conseguir alongar uma dívida de sua empresa com o Banco do Brasil, contraída justamente em 1996, como mostrou O GLOBO ontem. A inclusão de novos sócios teria o objetivo de driblar uma cláusula que estabelece limites para renegociações, calculados por cada proprietário. Os detalhes dessa operação são pouco conhecidos - o inquérito no Supremo corre em segredo de Justiça.
Da lista de sócios, constaria ainda um terceiro ex-empregado de Balbinotti, que teria trabalhado na lavoura como motorista de trator e viveria hoje em São Paulo. Além deles, estão o próprio Balbinotti, uma de suas filhas e um genro. Hoje, Sidiney e Gilson estão livres da dívida. Ela foi quitada pela empresa. Gilson desconfia que, ao fechar o contrato de trabalho temporário com o ruralista, em 1996, assinou alguma procuração sem saber.
- A gente assina vários documentos no contrato de trabalho. Eu não sei o que assinei - disse ele.
Deputado responde a ação em Maringá
Balbinotti responde a uma ação civil pública na 1ª Vara Cível de Maringá por suposto desvio de dinheiro público da Prefeitura de Maringá (PR). A Promotoria de Defesa do Patrimônio Público da cidade informou que investiga atos de improbidade do então prefeito, Jairo Gianotto (PMDB), e que, pelo que já se apurou até agora, Balbinotti não tem responsabilidade.
A ação diz respeito a um cheque de R$90,5 mil que Gianotto teria dado à empresa de sementes Adriana, de Balbinotti, em setembro de 1998, para pagar uma compra de sementes. Balbinotti usou o cheque do prefeito, que não tinha fundos, para pagar parte de uma dívida com a empresa Produquímica, de São Paulo. Ao trocar o sem fundos por outro, em dezembro de 1998, o prefeito saldou a dívida com um cheque da Prefeitura de Maringá, embora a despesa fosse pessoal.
COLABORARAM: Maria Lima, de Brasília, e Ana Paula Carvalho, de Curitiba