Título: De olho no futuro, ainda à sombra do passado
Autor: Aggege, Soraya
Fonte: O Globo, 18/03/2007, O País, p. 8
Chamadas por ambientalistas de "desertos verdes", plantações de cana tomam lugar de laranjais.
Cultura da cana-de-açúcar para fabricação do etanol se expande no país ainda com condições degradantes de trabalho.
O verde da cana é também o da esperança brasileira rumo a um lugar de ponta no comércio mundial do etanol - combustível limpo e aposta no combate à emissão de gases poluentes no mundo. Mas fantasmas do passado ainda atormentam o setor. Uma peregrinação de 300 mil migrantes, todos os anos, percorre os caminhos da cana-de-açúcar, à espera de emprego, submetida a uma carga de trabalho muitas vezes desumana. Para sobreviver ao teste de resistência, muitos recorrem às drogas, num caminho sem volta. A degradação leva a doenças e até à morte. E ainda há resíduos de trabalho escravo, apesar do reconhecido avanço nas condições de colheita, atestado pela Organização Internacional do Trabalho.
Atrativa para a venda do combustível, a perspectiva de reduzir a emissão de gases poluentes não é suficiente para tranqüilizar ambientalistas, que temem os efeitos das queimadas e da monocultura. Já a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) nega problemas ambientais, sociais e trabalhistas. "O álcool combustível é o mais benéfico ao meio ambiente", diz a entidade.