Título: Educador diz que não há mais tempo para errar
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Fonte: O Globo, 25/03/2007, O País, p. 13
Especialista em Educação da Unesco, Célio da Cunha lembra que Brasil investe menos em educação que Bolívia.
SÃO PAULO. "O Brasil não tem mais tempo para colher fracassos". A avaliação é do especialista em educação da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) Célio da Cunha, um dos defensores do Plano de Desenvolvimento da Educação, apelidado PAC da Educação, lançado na semana passada pelo governo federal. Foi a própria Unesco que mostrou, há dois anos, em seu compêndio mundial, que o Brasil tem investido menos de seu PIB em educação que países como Bolívia, Colômbia e Argentina.
- Essa situação de exclusão e de baixa qualidade do ensino pode ser corrigida pelo PAC da Educação. Pelo menos é a esperança que ficou no ar. Esperamos que seja realmente uma política suprapartidária e bem monitorada, porque a educação não pode estar sujeita às oscilações dos partidos - disse.
Para Cunha, programas de inclusão terão resultados se forem inseridos como processos e voltados para a lógica pedagógica. Na avaliação do educador da Unesco, o Brasil precisa ainda investir em pesquisas para definir melhor seus programas de inclusão, principalmente por causa das variantes regionais e sociais.
- O ProJovem, por exemplo, é uma iniciativa interessante, mas o mais importante realmente é a melhoria do ensino regular. As pessoas precisam estar dentro das escolas, mas com professores qualificados. É importante um monitoramento, porque as escolas precisam ensinar, trocando a lógica da administração pela pedagógica - afirma Cunha.
Omissão histórica de pelo menos 150 anos
O educador da Unesco frisa ainda que os programas não podem funcionar como remendos, já que são necessários, mas precisam ser vinculados com as escolas.
- Não se pode, por exemplo, isolar a variável freqüência. É preciso definir o vínculo - afirmou.
Cunha lembra que o Brasil tem uma omissão histórica com a educação, de pelo menos 150 anos, em relação a outros países próximos.
- Chile, Argentina e Uruguai começaram a estruturar um sistema de educação popular em meados do século XIX. Nessa época, o Brasil foi omisso. Legalmente, só começou a se estruturar em 1966, com o salário educação. Depois veio a Emenda Calmon, na década de 80, e depois a Constituição. Agora temos o Plano de Desenvolvimento da Educação - disse.
Para o educador, o investimento do Brasil tem sido pequeno com relação aos demais países, segundo o compêndio mundial de 2005. O Brasil investiu apenas 4,2% do PIB, enquanto a Bolívia alcançou 6,3%, a Argentina, 6% e a Colômbia, 5,2%. Também países em desenvolvimento investiram mais, como a Malásia, que aplicou 8,1%. Noruega e Israel lançaram 7,6%. Países desenvolvidos, como França e Áustria, puderam aplicar menos, 5,6% e 5,7%, respectivamente. (Soraya Aggege)