Título: Fim?
Autor: Doca, Geralda e Gois, Chico de
Fonte: O Globo, 28/03/2007, Economia, p. 23
Irritado com acusações entre órgãos, Lula quer "prazo, dia e hora" para término do caos aéreo.
Opresidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu ontem que os órgãos federais responsáveis pela gestão do setor aéreo atuam de forma desarticulada e que isso contribui para que, um ano após o início da crise - iniciada com a derrocada da Varig e agravada em setembro pelo acidente da Gol -, a população não tenha obtido do poder público a solução para o caos nos céus do país. Lula demonstrou irritação especialmente com a troca de farpas entre as áreas responsáveis pela aviação civil e afirmou ter exigido das autoridades um diagnóstico preciso da situação e "prazo, dia e hora" para anunciar que não haverá mais problemas nos aeroportos brasileiros. Após um fim de semana de transtornos nos aeroportos, ontem o dia foi tranqüilo.
- Já estou lendo muita coisa na imprensa, já vi muita gente culpar, um fica culpando o outro - declarou o presidente. - Quero um diagnóstico preciso, porque na entrada e na saída de passageiros, de brasileiros ou estrangeiros, temos que dar a eles tranqüilidade. É obrigação do Estado cuidar disso. Não existe mais explicação para a sociedade a não ser a solução.
O presidente destacou que uns tentam culpar os controladores, mas que eles são apenas "um item" da crise. Acrescentou que as concorrentes da Varig não conseguiram atender aos passageiros. E afirmou que detectou "culpabilidade de pessoas que tomavam conta dos aeroportos".
A Infraero é responsável pela administração de 67 aeroportos, onde se concentram 97% do movimento, e deve garantir o funcionamento dos equipamentos de auxílio à navegação. A Aeronáutica detém o monopólio do controle do tráfego - cabendo a ela homologar equipamentos usados pela estatal. Ambas são subordinadas ao Ministério da Defesa. Já a Agência Nacional de Aviação Civil deve regular e fiscalizar o setor, zelar pela segurança dos passageiros e coibir abusos aos usuários. É uma autarquia independente mas ligada à Defesa.
Para Lula, é preciso encontrar uma saída rápida, pois o problema atinge todas as camadas da população.
- Eu também uso avião - disse ele, que, no entanto, tem o espaço aéreo fechado quando voa e, por isso, não sofre com os atrasos.
Lula disse que, quando se está a dez mil metros de altura, é preciso estar tranqüilo com o fato de que as equipes em terra estão fazendo o melhor.
- O lá de cima a gente sabe que cuida melhor - frisou o presidente, referindo-se a Deus.
Ontem, segundo fontes do Palácio, Lula deu sinal verde para colocar em prática a transferência do controle de tráfego à área civil. Irritado, lembrou que deu tempo para a Aeronáutica resolver o problema.
A Controladoria-Geral da União abriu sindicância, a pedido do ministro da Defesa, Waldir Pires, para investigar contratos entre a Infraero e a FS 3, além de outras empresas que exploram publicidade nos aeroportos, que encobririam fraude com conivência de servidores. Relatório da Defesa mostra desfalque anual de, no mínimo, R$70 milhões.
Dirigentes sindicais da Polícia Federal marcaram para hoje uma paralisação das atividades em todo o país por 24 horas. A idéia é suspender a emissão de passaportes e a concessão de registros de empresas de segurança, entre outros serviços.
Segundo o presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais, Marcos Winck, não haverá operações-padrão nos aeroportos de Brasília, Rio e Foz do Iguaçu, como previsto, mas até ontem os policiais ainda não tinham decidido se suspenderiam a operação-padrão em São Paulo.