Título: Lula diz que Pires fica, mas Aldo é o mais cotado para ocupar a Defesa
Autor: Damé, Luiza e Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 05/04/2007, Economia, p. 22
No governo, avaliação é de que a troca deveria ter sido feita em dezembro.
BRASÍLIA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que é da sua competência nomear e demitir ministros e, enfaticamente, assegurou que o ministro da Defesa, Waldir Pires, vai continuar no cargo. Nos bastidores, Lula tem dado a entender que Pires é mais uma vítima da falta de sintonia entre os comandantes militares e o ministro civil desde a criação da Defesa. Porém, admite que o amigo está politicamente desgastado e que sua substituição é inevitável. No Planalto, o nome mais cotado continua sendo o do ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo (PCdoB-SP).
Ao ser indagado sobre a situação de Pires durante almoço no Itamaraty para receber o presidente do Equador Rafael Correa, Lula respondeu:
- Não tem troca de ministro. A reforma ministerial acabou. Se queden tranquiles (sic).
Na saída, reiterou:
- (Ele, Pires) Vai continuar no cargo. Ministro, sou eu quem ponho e sou eu quem tiro. Eu quis pô-lo. Se um dia tiver que tirá-lo, eu o tirarei. Por enquanto, não é essa a questão.
Resistência militar é o principal obstáculo
Em jantar com senadores do PT, na noite de terça-feira, Lula procurou minimizar a responsabilidade de Waldir Pires pela crise do setor aéreo. O presidente disse, segundo participantes, que existe uma desarticulação permanente entre os oficiais militares e o Executivo desde a implantação do Ministério da Defesa. Esta seria uma das razões para erros cometidos no decorrer do processo e que culminaram com a greve dos controladores de vôo na noite de sexta-feira passada.
"O problema do Ministério da Defesa só vai ser resolvido no dia em que os militares aceitarem o comando de um civil. Por isso, o (José) Viegas não deu certo, o (vice-presidente) José Alencar não deu certo, o Waldir não deu certo e os ministros do Fernando Henrique também não deram certo", teria dito Lula.
Mas isso não impede que o presidente reconheça, segundo interlocutores, que há um esvaziamento da autoridade de Waldir Pires. Não foi à toa que Lula restituiu o comando da Aeronáutica nas negociações e na elaboração do plano emergencial de controle de tráfego.
Na verdade, o Planalto reconhece que Pires deveria ter saído em dezembro, quando o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou, publicamente, a incapacidade de gestão do ministério como um dos fatores que levaram ao apagão. Também já tinha ficado claro que o brigadeiro Luiz Carlos Bueno, então comandante da Força Aérea, também não agia em sintonia com a Defesa e estava sendo incapaz de solucionar a insatisfação nos quartéis.
A única questão é o tempo certo da substituição. No auge da crise, isso só aumentaria o problema, avaliou ontem um ministro com trânsito no gabinete presidencial. Por isso, Lula deve manter o amigo, mesmo com poderes esvaziados, até a situação normalizar. Para o cargo, o mais cotado continua sendo Aldo Rebelo. Pesa contra ele o fato de ser do partido que comandou a Guerrilha do Araguaia, nos anos 70 - o que é visto com maus olhos pelos oficiais da reserva.
Mas Aldo é um político com ótimo trânsito nos setores da ativa das Forças Armadas - há oficiais que chegam a dizer que o deputado compartilha da mesma visão militar. Nos últimos dias, Aldo chegou a manter interlocução com vários oficiais no sentindo de ajudar a tranqüilizar os ânimos entre os militares.
Até o momento, ele não foi convidado oficialmente por Lula para ir para a Defesa. Mas alguns deputados já sondaram o comunista sobre a possibilidade de ele aceitar um convite. Em conversas na Câmara, Aldo tem demonstrado total domínio dos assuntos da crise aérea. O nome de Nelson Jobim, ex-ministro do STF e da Justiça, chegou a circular, mas fontes no Palácio dizem que ele não foi cogitado.
Avaliação é que plano B enfraquece os grevistas
Mesmo com esta indefinição, o Planalto aposta que, se houver nova paralisação dos controladores, o movimento perderia força em dois ou três dias. A avaliação interna é que, diferentemente da última sexta-feira, mesmo que seja insuficiente para normalizar o fluxo aéreo, a ação do plano B preparado pela FAB enfraqueceria os grevistas num curto prazo, pois haveria substitutos, o que "quebraria a perna" do movimento. Isso forçaria os controladores a negociar com o governo. Por isso, o governo recuperou a tranqüilidade.
Segundo relatos, o presidente Lula ainda está irritado com o fato de não ter sido informado previamente do movimento dos controladores e que saiu do Brasil, na sexta-feira, para os EUA, com a mais perfeita ordem. Ele está inconformado pelo fato do serviço de inteligência não ter detectado ação de integrantes do próprio governo. Lula está convicto que a inteligência foi surpreendida, o que considerou muito grave.