Título: Jovens e sem experiência de greve
Autor: D'Ercole, Ronaldo
Fonte: O Globo, 08/04/2007, Economia, p. 31

Maioria dos controladores rebelados não tem ligação com meio sindical.

BRASÍLIA e RIO. A decisão de suspender 80% do tráfego aéreo brasileiro no fim do mês passado foi pautada pelo ímpeto, não pela experiência. Naquela sexta-feira, 30 de março, apenas um quarto dos controladores de vôo do centro de controle em Brasília, o Cindacta 1, tinha mais de 20 anos de serviço. O movimento foi majoritariamente dos mais jovens graduados do período pós-redemocratização.

No jargão das Forças Armadas, a maioria dos rebelados é formada por sargentos "modernos". O termo é usado para classificar os militares com no máximo 25 anos de idade e cinco de quartel - o que não é suficiente nem para pleitear a primeira promoção na caserna. São terceiros-sargentos, da base da carreira de controlador de vôo, com salário líquido de R$2.100. Como todos os seus pares, eles têm outras funções.

- Não estão preocupados em seguir carreira. Querem terminar a faculdade e pedir baixa - resume um oficial da Força Aérea Brasileira (FAB).

Boa parte não tem filhos. Como os salários são baixos, os profissionais de quem são exigidos ensino médio completo e formação especial de um ano e meio cursam faculdade para abandonar a carreira:

- A evasão é grande. São advogados, dentistas. Eu mesmo vou começar a faculdade de administração para outra função na Infraero - diz o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Proteção de Vôo do Rio de Janeiro, Jorge Nunes, controlador civil há 30 anos.

O oficial ouvido pelo GLOBO acredita que essa maneira de ver a carreira está por trás do movimento que começou após o acidente com o avião da Gol.

- Abraçamos a causa para mostrar os problemas do setor, dos radares que dão pane, das freqüências de rádio ruins e das condições de trabalho. Mas o foco foi desvirtuado para a questão da hierarquia e da disciplina - lamentou um sargento.

Segundo fontes da FAB, a maioria absoluta dos insubordinados e insatisfeitos não tem ligação com o mundo sindical. Talvez, por isso, tenham ficado abatidos com o recuo do governo, após fecharem, naquela sexta-feira, um acordo.

- Não temos experiência com negociações. Por isso, o governo traiu a nossa confiança - diz um controlador.

Do outro lado, os passageiros reclamam. O gerente comercial Luis Fernando Cordeiro estava quinta-feira no Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim tentando embarcar para Belo Horizonte, com a colega Maria da Graça Costa:

- É inadmissível um serviço desses ficar refém de um grupo.

Para o consultor João Guilherme Vargas Neto, é uma categoria com controle militar e pouca expressão sindical. Surpreenderam a nação, como os caminhoneiros na greve no fim dos anos 90, que parou o país.