Título: O desastre do apagão nas estradas
Autor: Gripp, Alan
Fonte: O Globo, 10/04/2007, O País, p. 3
Aumento do tráfego, combinado com estradas ruins, eleva números de acidentes e mortes
Alan Gripp
Amistura explosiva de imprudência, más condições das estradas e aumento no fluxo de veículos devido à crise aérea fez crescer a violência nas rodovias federais na Semana Santa. Em relação à Páscoa do ano passado, os acidentes aumentaram 23,86%, assim como os registros de feridos (crescimento de 29,25%) e de mortos (2,6%). Os números absolutos assustam: em quatro dias, foram contabilizados 1.744 acidentes, com 1.149 feridos e 79 vítimas fatais. Em 2006, foram 1.408 acidentes, 889 feridos e 77 mortes.
Na avaliação da Polícia Rodoviária Federal (PRF), apenas a crise dos aeroportos aumentou em 10% o fluxo de carros nas estradas, contribuindo para o aumento do número de acidentes. Em relação aos dias normais, o movimento foi 40% maior nos momentos de pico.
- Apesar de não ter sido o fator preponderante, o apagão aéreo influenciou, obviamente. A maior parte desses acidente acontece em viagens curtas, com média de duas horas. E muita gente que ficou em dúvida se viajava de carro ou avião escolheu a primeira opção - disse o coordenador de Controle Operacional da PRF, inspetor Alvarez Simões.
Para o professor da área de Transportes do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Cesar Marques, a crise aérea fez mais: pôs nas estradas uma série de motoristas sem experiência.
- É um fator menos divulgado, mas não menos importante. Boa parte dos motoristas que foi às estradas nesse feriado prefere viajar de avião. São mais motoristas com menos experiência - disse Marques.
No domingo de Páscoa, 29 mortos
Novamente, o feriado foi mais violento em Minas, que registrou o maior número de acidentes (324). Em relação a 2006, o número de acidentes nas estradas federais no estado cresceu 30,6%. Minas também teve os maiores números de feridos (201) e mortos (15). Além de estradas em péssimas condições, o estado tem a maior malha rodoviária federal do país, com quase sete mil quilômetros. O levantamento não inclui rodovias estaduais, também em péssimo estado.
Mas, apesar dos problemas de conservação e sinalização das estradas, na opinião da PRF, foi a imprudência dos motoristas, mais uma vez, a principal causa da violência no trânsito.
- As estradas ruins contribuem, é claro. Mas os dados mostram que, em feriados como este, cerca de dois terços dos acidentes ocorrem em estradas em boas condições. E mais de 70% acontecem em trechos de reta e de dia - afirmou Simões.
No ranking de acidentes na Semana Santa, Minas Gerais foi seguido por Santa Catarina (210), que ocupou a mesma posição ano passado - em comparação com 2006, foram 37,2% acidentes a mais no estado. Em seguida, vêm São Paulo (164), Rio Grande do Sul (158) e Rio de Janeiro (151).
Nas estatísticas de mortes, as estradas mineiras superaram São Paulo (14), Rio de Janeiro (nove), Goiás e Santa Catarina (cinco) e Mato Grosso do Sul e Maranhão (quatro). No número de feridos, depois de Minas aparecem Santa Catarina (157), Paraná (99), Rio Grande do Sul (81) e São Paulo (73).
O dia mais violento do feriado foi o domingo de Páscoa, quando 29 pessoas morreram e 359 ficaram feridas nos 639 acidentes registrados. Na quinta-feira, quando a operação começou, foram 16 mortes. Segundo a PRF, a explicação para isso é simples: a volta para casa sempre é concentrada no último dia do feriado.
As estatísticas preocuparam entidades que lutam para reduzir a violência no trânsito. Diza Gonzaga, que há dez anos comanda a Fundação Vida Urgente, criada após a morte do filho, Thiago Gonzaga, no Rio Grande do Sul, critica as campanhas feitas às vésperas de períodos de grande movimento nas estradas.
- Está previsto no Código Nacional de Trânsito: a educação para o trânsito deve começar desde a infância e ir até a universidade. Enquanto as campanhas acontecerem apenas de véspera, nada mudará. Isso funciona apenas como um alerta - afirma Diza Gonzaga.
Para ela, os acidentes estão cada vez mais relacionados ao mau comportamento dos motoristas:
- Infelizmente, é essa a verdade. Apenas 5% dos acidentes acontecem por problemas nas pistas, dizem as estatísticas. O motorista só respeita os limites quando há ameaça de multa. Tanto que a maioria ainda pisa no acelerador logo depois de passar por um pardal.