Título: Bicho tentou estender a rede até o Congresso
Autor: Carvalho, Jaílton de e Gripp, Alan
Fonte: O Globo, 19/04/2007, Rio, p. 14
A MÁFIA OFICIAL: Parecer enviado ao STJ sugere investigação posterior do braço parlamentar da organização.
Procurador-geral da República: contraventores queriam que fossem aprovadas medidas favoráveis aos jogos de azar.
BRASÍLIA. O procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, afirma num de seus despachos, no inquérito que deu origem à Operação Hurricane, que a organização de bicheiros presos pela PF tentava estender a rede de influência do grupo até o Congresso Nacional. O procurador fez a denúncia com base num relatório do serviço de inteligência da PF sobre uma suposta rede de corrupção montada pelos bicheiros no Judiciário e nas polícias Civil e Federal, no Rio de Janeiro. Os bicheiros e magistrados citados na investigação estão presos na carceragem da PF em Brasília.
"Noticia a autoridade policial, como fato relevante do período, que os integrantes da organização vêm se movimentando para obter, no Congresso Nacional, a aprovação de medidas que permitam a continuidade da exploração dos jogos de azar. Foram constatadas tentativas de aproximação com parlamentares (senador e deputado federal)", informou o procurador, em parecer enviado ao ministro do STF Cezar Peluso, relator do caso. Para Souza, a PF deveria aprofundar as investigações sobre o braço parlamentar dos bicheiros numa outra etapa da Hurricane.
Deputado participou de reunião com bicheiros
No relatório, o serviço de inteligência da PF registra contatos de integrantes da organização com parlamentares. Num trecho, a polícia informa que o deputado Simão Sessim (PP-RJ) participou de uma reunião da cúpula do jogo, na casa de Anizio Abrahão, que é seu primo.
A PF informa também que o bicheiro Ailton Guimarães, o Capitão Guimarães, fez doações de dinheiro à campanha da deputada Marina Maggessi (PPS-RJ). Os pagamentos seriam intermediados pelos policiais civis identificados como Marcos Antônio dos Santos Bretas, o Marcão, e Fernando Salsicha.
A PF mostra ainda que, num determinado momento de dificuldades da organização, o desembargador Ernesto Dória, do Tribunal Regional do Trabalho de Campinas, diz a um amigo que vai pedir ajuda ao senador Romeu Tuma (DEM-SP) e ao diretor da Interpol, delegado Alberto Lasserre.
Dória queria confirmar se estava sendo investigado
Dória estava interessado em confirmar se, de fato, estava sob investigação da PF. Tuma é ex-diretor da corporação. O desembargador faz a referência a Tuma numa conversa com o advogado Jaime Dias, em 14 de setembro do ano passado. "Eu quero que você marque essa semana que vem, com calma, que o Tuma está aqui no Rio e eu queria que você conhecesse (...) Vai ter o evento da Interpol e na terça-feira ele está no Rio", pede o desembargador. Em seguida, pede para o amigo guardar segredo. "Você jamais bote na cabeça que eu tentei armar, jamais faria uma coisa dessas, eu quero ficar cego das duas vistas", acrescenta.
Em conversa do dia 23 de setembro, Dória sugere ao ex-chefe da Interpol Édson Oliveira que ele envie emissários a Brasília para pedir ajuda. Num trecho, o juiz pede a Édson para ver "se o Tuma os ajuda nisso, poque ele gosta muito dele". Édson diz que também gosta muito do senador, mas acha difícil "porque ele (Tuma) não gosta muito de se comprometer".
O desembargador tentou se aproximar de auxiliares do governador Sérgio Cabral. Segundo a PF, Dória "ofereceu vantagem indevida a pessoa identificada como coronel Cláudio, assessor do governador Sérgio Cabral, para que o mesmo interceda na liberação de verbas para o pagamento de precatório, cuja pessoa beneficiada seria sua esposa", diz a PF.
Em nenhum momento, entretanto, a PF faz referência a participação ou resposta aos supostos pedidos que teriam sido feitos por Dória ao senador Romeu Tuma, ao delegado Lasserre ou ao coronel Cláudio. Portanto, eles não estão sob investigação. Procurado, o senador Tuma não foi encontrado ontem para comentar o assunto.