Título: Temporão prioriza bolsa para pacientes mentais
Autor: Éboli, Evandro
Fonte: O Globo, 23/04/2007, O País, p. 5

Ministério da Saúde quer ampliar programa que há quatro anos paga R$240 mensais para famílias que ficam com doente em casa.

BRASÍLIA. Paciente mental crônica, Patrícia Francisca, de 34 anos, passou quase toda sua vida internada em hospitais psiquiátricos e manicômios em Brasília. Somente há quatro anos ela voltou para casa, graças a um programa do governo federal que concede uma bolsa mensal, no valor de R$240, para a família que recebe de volta o parente que sofre de doença mental. O dinheiro ajuda a família a cuidar do paciente. O programa "De volta para a casa", da Coordenação de Saúde Mental, vinculada ao Ministério da Saúde, está em vigor desde 2003 e deve ser transformado numa das vitrines da gestão do novo ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que promete ampliá-lo.

Construção de casa com o dinheiro da bolsa

Já foram beneficiados 2.519 pacientes, que estavam há longo tempo internados e longe da família. O projeto faz parte do esforço de se implementar no país um tratamento mais humanizado ao doente mental e também tirá-lo dos hospitais e incluí-lo na sociedade.

Adai dos Santos Silva, também um doente crônico, chegou a viver trancado num cubículo e hoje vive com sua mãe em Samambaia, uma cidade-satélite do Distrito Federal. Com o dinheiro da bolsa, oficialmente chamada de auxílio-reabilitação, dona Delcy conseguiu construir uma pequena casa para os dois viverem.

O perfil do doente mental que fica internado muito tempo é muito parecido. São pessoas de famílias pobres, que têm dificuldade para se manter e que precisam trabalhar para sobreviver. Com o retorno do parente, a rotina muda completamente e a bolsa pode ajudar no sustento da família.

Esse é o caso de Rejane Francisca, que cuida da irmã Patrícia. Faxineira, Rejane, que vive com outras duas irmãs, deixou de trabalhar e com a pequena renda da bolsa consegue ficar em casa cuidando da irmã doente.

- O dinheiro mudou nossa vida. Ajuda a nos manter, a cuidar de minha irmã, que não precisa mais viver internada e longe da gente. Se não fosse a bolsa, ela teria morrido no hospital - disse Rejane.

Mas essa reinserção, ou inclusão social, do paciente não é fácil. Rejane lembra das dificuldades no início, há quatro anos, quando a irmã retornou e seu quadro de saúde era bem delicado. Era violenta, quebrava objetos da casa e os vizinhos chegavam a chamar a polícia. Patrícia jogava pedra no telhado da casa vizinha e quebrava as telhas. Foi preciso cercar a casa para evitar essas atitudes.

O paciente volta para a residência de seus familiares mas continua com o atendimento médico, só que ambulatorial, em postos de saúde ou nos recém-criados Centros de Atenção Psicossocial (Caps). São mais de mil distribuídos no país. Uma equipe multidisciplinar acompanha o paciente. A família do paciente não gasta dinheiro com remédios. O medicamento é gratuito.

O psiquiatra Pedro Delgado, coordenador de Saúde Mental do ministério, diz que a implementação do programa não foi fácil e enfrenta problemas de várias ordens, como até falta de documentação. Boa parte dos doentes mentais sequer tem certidão de nascimento. É preciso correr atrás dos cartórios.

- A reintegração social de um paciente crônico de longa permanência, internado em alguns casos até 20 anos e de forma ininterrupta, não acontece da noite para o dia. E não é fácil - afirmou Pedro Delgado, que é irmão do ex-deputado federal Paulo Delgado (PT-MG), autor da lei que prevê a extinção dos manicômios no país.

Cerca de 80 pacientes voltam para casa por mês

Pedro Delgado estima que há no Brasil, ainda, entre dez a 12 mil pacientes internados, pelo menos, há mais de dois anos. Segundo ele, cerca de 80 doentes mentais ingressam no programa "De volta para a casa" a cada mês. A dificuldade de aceitação da família em receber o doente mental é outro entrave do programa. É um trabalho que envolve entidades da sociedade civil e de associações de parentes desses pacientes.