Título: Um duelo entre esquerda e direita
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 23/04/2007, O Mundo, p. 19
Primeira mulher no 2º turno, socialista Ségolène Royal disputará Presidência com Sarkozy.
AFrança terá o duelo clássico entre esquerda e direita. Numa votação que bateu o recorde em participação do eleitorado (84,5%) Nicolas Sarkozy, da UMP, de direita, e Ségolène Royal, do Partido Socialista, classificaram-se ontem para disputar o segundo turno das eleições presidenciais, no dia 6 de maio, com 31% e 25,8% dos votos, respectivamente.
Sarkozy bateu recordes históricos, confirmou-se como o político mais popular do país e deixou uma constatação: a França confirmou sua guinada para a direita. Do lado dos socialistas, grande alívio. A esquerda se sentiu ameaçada com o surgimento meteórico nas sondagens de um candidato centrista, François Bayrou, da UDF. Ao obter 18%, Bayrou virou o homem-chave do segundo turno: é o seu eleitorado - que poderá se voltar para a esquerda ou para a direita - que vai decidir o segundo turno.
Segundo quatro pesquisas divulgadas ontem, Sarkozy venceria no segundo turno com 52% a 54% dos votos.
"Le Monde": direita bateu recorde
Tão logo foi anunciada a participação de Ségolène no segundo turno, o quartel-general do PS explodiu numa enorme festa. Cerca de duas mil pessoas gritavam na ruas "Ségolène, presidente". Como Coline Fernandez, alta funcionária de um banco, que foi a um bar ao lado da sede do partido participar da festa.
- Uma coisa posso lhe assegurar: não vou encontrar ninguém da diretoria do banco aqui... Eu sou a única de esquerda na equipe.
Não muito longe dali, era a festa da UMP. Com cinco pontos de vantagem sobre a socialista, Sarkozy teve um desempenho que só foi superado por Valéry Giscard d"Estaing, em 1974 (32,6%). Nas contas do "Le Monde", se incluídos todos os votos de centro-direita de Bayrou e da extrema-direita, a direita bateu recorde histórico. "É uma ilustração da virada à direita da sociedade, não apenas eleitoralmente, mas também no plano dos valores e das expectativas", concluiu o jornal.
Os partidários de Sarkozy gritavam "estamos na final". No discurso, Sarkozy disse que vai trabalhar além das divergências partidárias para reunir "todos os franceses" em torno de um novo projeto de sociedade. Ele desejou que a campanha do segundo turno seja "um debate de idéias".
- Quero unir todos os franceses em torno de um novo sonho de França - disse Sarkozy, que considerou a alta participação do eleitorado como o grande trunfo do primeiro turno.
Na sede do PS, ninguém parecia se importar com a grande vantagem da direita. O importante, diziam, é que Ségolène "passou". O PS enterrou finalmente ontem o trauma das eleições de 2002, quando o candidato socialista Lionel Jospin foi eliminado no primeiro turno pelo líder de extrema-direita Jean-Marie Le Pen. Toda vestida de branco - sua marca registrada - Ségolène Royal declarou:
- A batalha começa esta noite! Não pertenço somente aos militantes socialistas, mas a toda a esquerda e aos ecologistas. Quero unir a maioria dos franceses que querem mudanças.
No campo dos socialistas, primeira constatação dos analistas: Ségolène acertou em cheio ao se distanciar dos "elefantes" do partido, isto é, dos homens que sempre dominaram a hierarquia, e ao adotar estilo e discurso próprios. Às vésperas da votação, pairava dúvida sobre seu desempenho. Ségolène, nesse campo, calou a boca de muitos: com 25,8%, ela não só fez bem melhor que Jospin em 2002, como chegou próximo ao percentual no primeiro turno de François Mitterrand, em 1981. Quem se lembrou disso foi seu companheiro, François Hollande, secretário-geral do PS:
- Hoje o povo francês ganhou. Eles deram a melhor lição de democracia.
Agora vem o trabalho mais duro para os socialistas: tentar fechar uma aliança com Bayrou para atrair seus 18% de votos. Segundo uma pesquisa divulgada ontem, Sarkozy e Ségolène dividiriam de forma igual os votos do centrista.
Companheiro da candidata, com quem tem quatro filhos, Hollande fez ontem um apelo para "uma união grande em torno do pacto de Ségolène Royal". A candidata, de qualquer forma, já garantiu o seu lugar na História: é a primeira mulher na França a conseguir chegar tão perto da Presidência. Mas a batalha dos socialistas ainda está longe de estar ganha. "O combate vai se travar agora na exploração dos pontos fracos dos dois candidatos: os excessos de Nicolas Sarkozy, e as insuficiências de Ségolène Royal", escreveu o "Jornal de Dimanche".
As próximas duas semanas serão marcadas por uma verdadeira barganha eleitoral. Ségolène e Sarkozy vão disputar com unhas e dentes os votos dos eleitores de François Bayrou. É possível que haja uma aliança entre o político centrista e a candidata. A idéia foi lançada na reta final das eleições por algumas personalidades socialistas, como Michel Rocard. E foi rechaçada pelos dois campos, que insistiram que iriam até o final do primeiro turno sozinhos. Agora que Bayrou foi eliminado, o campo está aberto para uma aliança. O primeiro passo da socialista será atrair o restante da esquerda, que teve uma votação medíocre neste primeiro turno: o partido comunista e os verdes só conseguiram 3,5%, e outros quatro candidatos da extrema-esquerda somaram 8%.