Título: Lula quer ligação de oceanos por trem
Autor: Alvarez, Regina
Fonte: O Globo, 26/04/2007, Economia, p. 25
Projeto ferroviário permitiria exportação brasileira para a Ásia pelo Pacífico.
SANTIAGO. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou ontem à noite ao Chile disposto a propor a sua colega Michelle Bachelet, hoje, a retomada de um megaprojeto ferroviário, cujo fim é unir os oceanos Atlântico e Pacífico. Com esse corredor ligando os portos de Santos (SP) e Antofagasta, na costa chilena, os produtos brasileiros chegarão mais rapidamente aos mercados da Ásia. A medida também deverá agradar, e muito, a Argentina, Paraguai e Bolívia, países por onde passarão as ferrovias.
As obras de recuperação e construção de ferrovias são estimadas em US$460 milhões, segundo um técnico do governo brasileiro, em um trajeto de 4.300 quilômetros. Trata-se de um velho sonho dos exportadores, especialmente os brasileiros, que no ano passado venderam 11 milhões de toneladas de grãos somente à China.
Segundo uma fonte brasileira, os chineses se mostraram interessados em financiar parte do projeto, desde que os governos de Brasil e Chile anunciem sua intenção de levar à frente o empreendimento. Empresas brasileiras que produzem manufaturados, como calçados e têxteis, também poderiam se instalar no mercado chileno e aproveitar os acordos de livre comércio firmados pelo Chile com a Ásia.
A visita de Lula reforça a lua-de-mel entre Brasil e Chile. Bachelet já avisou que, em qualquer decisão a ser tomada sob o ponto de vista continental, o Brasil precisa ser ouvido. Essa aproximação tem sido chamada pelos dois governos de aliança renovada.
- O interesse da presidente do Chile não é apenas estratégico, mas também pessoal. Na juventude, Bachelet aprendeu português para poder cantar as músicas de Roberto Carlos - brincou uma fonte.
Mas nem tudo são flores. O mercado chileno está fechado para as importações brasileiras de carnes bovina, suína e de frango. Ao mesmo tempo, o país vizinho, parceiro associado ao Mercosul, exige que o Brasil compre mais vinhos chilenos. Essa demanda causa preocupação à Argentina, principal sócio brasileiro no bloco econômico.
O tema, delicado, está na pauta do encontro com Bachelet. Lula usará discrição, para não melindrar os argentinos, principais fornecedores de vinhos ao Brasil. Ele dirá que o Brasil está disposto a importar mais vinho chileno, desde que o Chile volte a comprar carnes do Brasil.
Remessas podem ser usadas na área de nutrição infantil
Hoje, a importação de vinhos do Chile está restrita a 280 mil caixas por ano, volume que poderá aumentar para 400 mil. Já as exportações de carne bovina para o país andino estão suspensas desde 2005, por causa de focos de febre aftosa em Mato Grosso do Sul e Paraná.
Depois da taxação de US$2 sobre as passagens aéreas, para compra e distribuição de medicamentos a países pobres, o Brasil agora quer encampar a proposta do Chile de se usar, na área de nutrição infantil, parte das remessas de latino-americanos que residem em nações desenvolvidas. A proposta ainda está sendo discutida - e também fará parte da pauta do encontro.