Título: Lula: 'Chávez tem sido um aliado excepcional '
Autor: Avetikian, Tamara
Fonte: O Globo, 27/04/2007, Economia, p. 23
Presidente quer moeda única em quatro anos e diz que nacionalização decretada por Evo Morales "é natural".
BRASÍLIA e SANTIAGO. O presidente Lula não está preocupado em falar de lideranças regionais. Muito menos que se diga que o Brasil poderá exercê-la, na qualidade de principal potência da América do Sul. Para ele, o tema prioritário é a integração regional, e que cada país tenha um papel de protagonista nesse processo. Durante uma longa entrevista no Palácio do Planalto, o presidente Lula respondeu na quarta-feira perguntas de jornalistas chilenos e argentinos, poucas horas antes de partir para Santiago.
Lula preferiu se referir aos pontos em comum na região, deixando de lado as diferenças com outros presidentes, a quem considerou amigos. A ênfase na unidade se traduzia em suas declarações, em especial quando foi perguntado sobre o papel do presidente venezuelano, Hugo Chávez, nas reuniões multilaterais dos últimos meses.
- A gente fala muito de Chávez. Ele tem sido um aliado excepcional, político e comercial. Um sócio. Não temos qualquer problema com a Venezuela - disse Lula, que vem discordando de Chávez pelo menos no que diz respeito ao aumento da produção de etanol, criticada pelo venezuelano como ameaça para os preços dos alimentos.
Presidente diz que não acredita em chavismo
O que tem havido, acrescentou Lula, "como disse a Chávez outro dia, é como se estivéssemos numa corrida de Fórmula 1: ele tem um carro que corre a 300 km/h e nós, a 280...".
Ontem, em Santiago, perguntado se estaria tentando criar com a presidente do Chile, Michelle Bachelet, um contraponto ao poder de Chávez na região, Lula respondeu que não e fez uma defesa do venezuelano:
- É importante lembrar que Chávez tem o seu comportamento interno, que seu povo gosta, tanto que o reelegeu tantas vezes, mas que tem tido uma relação, eu diria, democrática e civilizada com o Brasil. Temos parcerias muito fortes (...) e quero dizer que não vejo nenhum problema, também não acredito na existência de chavismo.
Lula: interesse dos países está acima da ideologia
Durante a entrevista aos jornalistas estrangeiros em Brasília, Lula minimizou a questão ideológica na liderança regional:
- Nas relações entre Estados não existe questão de ideologias; esta existe entre as pessoas. Quando conversamos com Equador ou Paraguai, é o interesse do país que está em jogo, não as vontades pessoais.
Na perspectiva de Lula, a integração se faz aos poucos, e o núcleo central é o Mercosul. Ele não se mostrou preocupado com a liderança de Chávez:
- Ninguém lidera porque quer ser líder. O líder surge na medida em que os liderados o reconhecem como tal. Na América Latina, não necessitamos de um líder, mas de uma relação muito forte entre Estados, de respeito mútuo.
Ao falar do presidente boliviano, Lula disse que ninguém "tem tanto a cara da Bolívia como Evo (Morales)" e que acha natural a nacionalização dos hidrocarbonetos naquele país.
- É importante recordar que o plebiscito (sobre a nacionalização) foi antes de Evo Morales. Considero natural que Evo queira nacionalizar - disse Lula, sem explicar sua posição sobre o valor devido por duas refinarias da Petrobras na Bolívia, tema de uma tensa conversa entre os presidentes.
Lula também defendeu uma moeda única e um Banco Central para o Mercosul:
- Trabalho com a idéia de que possamos construir, nos próximos quatro anos, uma moeda única do Mercosul. Devemos chegar a um Banco Central.
(*) O "El Mercúrio" faz parte do Grupo de Diarios América (GDA), com Luiza Damé, enviada especial a Santiago