Título: 'Ainda estamos no século XVII'
Autor: Melo, Liana e Almeida, Cássia
Fonte: O Globo, 29/04/2007, Economia, p. 30

Apesar do cerco ao trabalho escravo que vem sendo feito pelo Ministério do Trabalho, o economista José Roberto Novaes, da UFRJ, está convencido de que a relação trabalhista nas usinas só vai mudar quando os usineiros mexerem no índice de produtividade exigido no corte manual. Ele estuda há duas décadas os traços culturais do trabalho na cana-de-açúcar. No processo de modernização das usinas, a carteira de trabalho virou uma prática, mas as condições de trabalho continuam as mesmas.

O senhor acredita que as usinas substituíram os engenhos?

JOSÉ ROBERTO NOVAES: As usinas se modernizaram, tanto assim que algumas delas já usam até o corte mecanizado. Mas, no corte manual, continuamos reproduzindo o modelo da época colonial. Nas usinas de cana que usam esse tipo de corte, ainda estamos no século XVII.

Qual é a produtividade exigida hoje?

NOVAES: As usinas hoje estão trabalhando com um índice de produtividade muito alto, o que significa cerca de dez toneladas diárias. No passado, era menos da metade desse volume. Além disso, o preço médio da tonelada é muito baixo, R$2,70, e eles ganham por produtividade. Isso leva o cortador de cana ao limite da sua força física.

Os trabalhadores têm controle do volume que é cortado?

NOVAES: De jeito nenhum. A cana é paga pelo metro cortado e por seu peso. Como eles não controlam a produção, existe muita desconfiança em relação ao fiscal. A única experiência no Brasil em que os trabalhadores controlam a produção está sendo realizada numa usina de São Paulo.

Nenhuma usina respeita os direitos trabalhistas?

NOVAES: Cumprir a legislação não é um problema. Os usineiros estão ganhando tanto dinheiro que muitos assinam até a carteira de trabalho, sobretudo para os trabalhadores do corte mecanizado. Além do mais, cumprir a lei é uma exigência dos bancos para liberarem financiamento. Só que respeitar a lei não é suficiente. (Liana Melo)