Título: Tia de Lula peregrina por hospitais
Autor: Lins, Letícia
Fonte: O Globo, 01/05/2007, O País, p. 4
Num retrato da saúde pública, ela teve de percorrer 145km e passar por três unidades até ser operada.
RECIFE. Aos 77 anos e morando no mesmo sítio onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nasceu, no município de Caetés, em Pernambuco, Corina Guilhermina da Silva teve a perna direita amputada devido a complicações provocadas por arteriosclerose e agravadas por 19 anos de diabetes. Tia Corina, como é conhecida, só foi atendida, porém, depois de peregrinar 145 quilômetros e passar por dois hospitais públicos da região agreste. Ela acabou sendo operada num terceiro, o Hospital Jesus Pequenino, no município de Bezerros, a 107 quilômetros da capital.
Caetés fica a 252 quilômetros de Recife. Com quadro de toxemia devido a uma gangrena no pé, ela havia procurado Garanhuns, a 230 quilômetros da capital e a 32 de Caetés. Mas como seu estado era grave, foi levada para o Hospital Regional de Caruaru, a 130 quilômetros de Recife e a 122 de Caetés. Acabou sendo atendida na terceira instituição, o Hospital Jesus Pequenino, em Bezerros, que fica ainda mais distante de sua residência: 145 quilômetros.
Apesar dos problemas na rede pública de saúde, como os que Tia Corina teve de enfrentar, ano passado o presidente Lula chegou a declarar que a saúde no Brasil estava "perto da perfeição".
Segundo o cirurgião vascular Artur de Souza Leão, a paciente passa bem e deverá ter alta ainda esta semana. Ele disse que ela corria risco de vida se não fizesse a cirurgia, pois a intoxicação poderia se espalhar por todo o corpo e transformar-se em septicemia.
O médico informou que o comprometimento vascular da paciente já era tão grande em uma das pernas que as feridas estavam expostas e gangrenando. Ele é o responsável pela implantação do serviço de atendimento a doentes com problemas vasculares do Jesus Pequenino, que transformou-se em referência do serviço público de saúde no estado e recebe doentes da capital e de cidades do sertão que ficam até a 700 quilômetros do agreste.
Ainda traumatizada com a perda da perna direita, tia Corina fez um dramático apelo ao familiar mais ilustre, o presidente, para que a ajudasse a se recuperar. Mas ontem uma emissora de rádio de Bezerros, a Bezerros FM, lhe presenteou com uma cadeira de rodas. O médico disse que ela vai precisar de orientação no pós-operatório e que, quando estiver curada, deverá ser assistida para aprender a conviver com a deficiência. Ele pretende encaminhá-la a uma associação filantrópica que fornece próteses.
Corina mora em uma casa com paredes de taipa e sobrevivia da agricultura de subsistência, além da aposentadoria rural. Ela é irmã de Aristides Inácio da Silva, pai de Lula.