Título: BC muda forma de atuar e evita queda do dólar
Autor: Eloy, Patricia
Fonte: O Globo, 05/05/2007, Economia, p. 31

Autoridade monetária faz dois leilões no mercado à vista e moeda sobe 0,2%. Estrangeiros compram volume recorde na Bolsa.

RIO e SÃO PAULO. Um dia após gastar US$4 bilhões para impedir que o dólar se aproxime dos R$2, o Banco Central (BC) apostou ontem no fator surpresa para conter o movimento de queda da moeda americana. Numa estratégia distinta da dos últimos meses, no lugar de um leilão de compra de divisas no mercado à vista e de outro no mercado futuro de câmbio, a autoridade monetária fez duas operações à vista, em que teria adquirido cerca de US$700 milhões num espaço de apenas quatro horas. A novidade surpreendeu investidores e conseguiu impedir uma nova queda do dólar, que fechou em alta de 0,20%, cotado a R$2,032. Já o risco-Brasil avançou 2,63%, para 156 pontos centesimais.

Segundo analistas, a dupla intervenção no mercado à vista não acontecia desde janeiro de 2004. Ela seria uma resposta do BC ao movimento dos investidores nos últimos dias. Os leilões diários - um à vista e outro no mercado futuro, que ontem não aconteceu - costumavam ocorrer quase sempre no mesmo horário. Com isso, próximo às operações do BC, os bancos começavam a puxar a cotação do dólar para cima, para vender divisas a um valor mais alto para a autoridade monetária. Ontem, no entanto, o mercado foi surpreendido pela mudança de estratégia do BC.

- O recado é: acabou a farra do dinheiro fácil. O BC mostrou que tem armas e que, se for necessário, vai jogar pesado e lançar mão de todos instrumentos possíveis para evitar a queda do dólar e a manipulação das cotações pelo mercado - diz um analista de câmbio que prefere não se identificar.

Ontem, o dólar chegou a ser negociado a R$2,016 na mínima do dia, logo após o início dos negócios. Uma hora depois, às 11h42m, o BC anunciou o primeiro leilão à vista, em que adquiriu moeda a R$2,029. Quase quatro horas depois, às 15h33m, novo leilão, a R$2,034. Apesar disso, o dólar subiu apenar 0,20% ontem.

Para segurar dólar, BC gasta US$5,83 bilhões em três dias

Nos últimos três dias, o BC comprou US$5,83 bilhões nos mercados à vista e futuro de câmbio. Mesmo assim, no período, a moeda acumulou perdas de 0,24%. A cotação continua caindo devido à entrada de dólares de exportadores e à expectativa dos investidores estrangeiros de valorização do real, o que tem garantido o dólar próximo a R$2.

As apostas em um dólar mais baixo feitas por estrangeiros nos contratos negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) dispararam US$3,7 bilhões entre quarta e quinta-feira. Tais operações, que somavam US$6,7 bilhões em dezembro de 2006 e US$10,18 bilhões no fim de abril, chegaram anteontem a US$13,88 bilhões, segundo dados mais recentes. Por isso, o dólar não tem força para subir.

Também os estrangeiros levaram a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) a subir 0,76% ontem, para novo recorde histórico (50.597 pontos). O saldo de investimento estrangeiro na Bovespa mostra que o apetite desse tipo de investidor pelos papéis brasileiros nunca foi tão alto: as compras atingiram, no mês passado, o volume inédito de R$28,489 bilhões. Já as vendas movimentaram R$27,274 bilhões, fazendo o balanço de abril ficar positivo em R$1,51 bilhão. Em janeiro, os estrangeiros compraram cerca de R$21 bilhões na Bolsa. No mês passado, eles adquiriram 74,5% das ações lançadas no mercado local.

Mantega: BC evitará sobrevalorização do real

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que o BC deve continuar atuando para evitar especulações e a sobrevalorização da moeda brasileira. O resultado acima do esperado da balança comercial de abril, segundo ele, teria levado a movimentos especulativos nos mercados futuros de câmbio na última quinta-feira, forçando o BC a intervir com maior vigor.

- O BC vai continuar fazendo a política que achar mais adequada para evitar grandes especulações no mercado futuro, e continuar fazendo reservas. Uma determinada valorização é inevitável, mas temos que evitar uma sobrevalorização - disse o ministro, depois de almoço com empresários, ontem, em um hotel de São Paulo.

COLABOROU: Ronaldo D"Ercole