Título: Debate prematuro
Autor: Cruvinel, Tereza
Fonte: O Globo, 09/05/2007, O Globo, p. 2

A visita do Papa Bento XVI, que chega hoje ao Brasil, tem sua dimensão política, mas está sendo excessivamente politizada. E, ao que parece, por setores da própria Igreja, como os que aquecem a discussão sobre o aborto, uma tema que não está na agenda política brasileira. Há projetos em tramitação e o ministro da Saúde, aparentemente favorável, sugeriu que a sociedade discuta a questão. Mas não haverá decisão a curto prazo que justifique o debate exaltado e a manifestação meio bizarra de ontem à tarde, em Brasília.

Quase toda semana há alguma manifestação na Esplanada dos Ministérios, transtornando a vida de todos que ali passam rumo ao trabalho, de ônibus ou de carro. Mas isso faz parte das paisagem democrática. O ato de ontem, promovido por grupos católicos e evangélicos, foi inoportuno e fora do tom. A exaltação dos discursos e das palavras de ordem dava a impressão de que lá, dentro do Congresso, a legalização do aborto estava sendo votada. A estética da manifestação foi das piores, abusando de alegorias sobre fetos no lixo e fórceps assassinos, sem falar nas palavras de ordem de viés inquisitorial, como a faixa prometendo o fogo do inferno às que cometem o pecado de abortar.

Ao esquentar o debate, esses setores mais dogmáticos da Igreja podem até obter o efeito contrário. O presidente Lula, que vinha evitando se manifestar, embora declarando-se pessoalmente contrário, acabou defendendo a obrigação do Estado de enfrentar a realidade, tratando como caso de saúde pública a realização de milhares de abortos clandestinos, que colocam em risco (e causam a morte) de milhares de mulheres anualmente. As estatísticas não são confiáveis, até porque tais procedimentos são realizados na clandestinidade. Mas o número de curetagens feitas na rede pública de saúde, em sua absoluta maioria decorrentes de complicações do aborto ilegal, confere credibilidade à estimativa da ONG Rede Feminista de Saúde, de que as ocorrências anuais cheguem a 238 mil, a um custo estimado de US$10 milhões/ano. Em clínicas privadas, a hipocrisia brasileira sabe, ocorrem abortos ilegais porém seguros para as que podem pagar. É desta situação que vem falando o ministro Temporão, e foi dela que falou ontem o presidente Lula, explicitando uma divergência na véspera da chegada do Papa.

Em sua visita à maior nação católica do mundo, Bento XVI tem muitos outros assuntos a tratar com o clero e com os governantes. Em algum momento a questão do aborto será enfrentada no Brasil. Exatamente porque o tema divide opiniões e é de foro íntimo, dificilmente deixará de passar por uma consulta popular. Nesta hora, mesmo sendo o Estado laico, a Igreja terá todas as oportunidades para condená-lo como um atentado à vida. Esse debate prematuro acaba tirando a mística da visita do Papa para os milhões de católicos brasileiros. Mas setores da Igreja devem achar que ele ajuda a fortalecer a fé e a fidelidade do rebanho. Não parece provável. Os brasileiros separam bem religião, política e cidadania.