Título: Quem manda neste país?, pergunta irmão de Dorothy ao pedir justiça
Autor: Awi, Felipe
Fonte: O Globo, 14/05/2007, O País, p. 4
David está no Pará para julgamento de fazendeiro que teria ordenado crime.
XINGUARA (PA). O vocabulário em português do americano David Stang se resume a poucas palavras: "tudo bem", "bom dia", "muito obrigado" e "pistoleiros". Suas aulas, ministradas nos julgamentos dos assassinos de sua irmã, Dorothy Stang, continuam hoje em Belém, onde um dos acusados de planejar o crime, Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, será julgado. David está confiante numa condenação exemplar, mas ainda sem entender como funciona a Justiça brasileira.
- Quem manda neste país? É o povo ou são matadores profissionais como o Bida e o Regivaldo (Pereira Galvão, o outro acusado, que está solto)? Não falo só da minha irmã. Como pode matarem 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás e nada acontecer? - perguntou ele, que também acompanhou o julgamento e a condenação dos pistoleiros Rayfran das Neves e Clodoaldo Batista.
A revolta de David aumentou quando ele soube, ao chegar ao Brasil para o julgamento, que o Incra descobriu na semana passada 1.500 cabeças de gado de Bida num dos assentamentos de Anapu onde Dorothy trabalhava e foi assassinada, em fevereiro de 2005:
- Os bois dele estão pastando sobre o sangue da minha irmã. Isso quer dizer que o Bida continua mandando de dentro da prisão, como traficantes do Rio e de São Paulo. Como isso é possível?
Fazendeiros teriam dado R$50 mil por assassinato
São muitas as perguntas de David, mas uma resposta ele dá com certeza: sua irmã não foi assassinada a mando de Bida e de Regivaldo, mas de um consórcio de fazendeiros da região. Eles teriam se cotizado para oferecer R$50 mil aos pistoleiros, que deram seis tiros em Irmã Dorothy:
- Não haverá justiça para os brasileiros enquanto esse consórcio não for revelado. A própria governadora Ana Júlia (Carepa) diz que existe consórcio, então por que a Justiça demora tanto a chegar?
Desde o crime, David diz que se tornou a voz de Dorothy no Brasil. Ele continua morando nos EUA, mas faz questão de acompanhar os julgamentos de perto. Desta vez, a oitava, terá ao lado o irmão gêmeo, Thomas. Ambos foram padres, mas deixaram a batina e hoje fazem trabalhos sociais. Thomas trabalha com comunidades de negros e hispânicos em Los Angeles. David, que missionou dez anos na África, administra clínica para idosos e doentes mentais no Colorado. Ele diz que, se fosse mais novo, viria morar no Pará.
- Gosto dessa gente, mas infelizmente sinto que elas vivem com medo dos pistoleiros. Minha irmã ficou de 7h30m às 15h30m de bruços no chão porque ninguém teve coragem de mexer no corpo. Quando a polícia virou seu rosto, ela estava sorrindo - recorda.
Além de David e Thomas, Dorothy tinha mais cinco irmãos. Todos estão vivos. A irmã assassinada é, para eles, um modelo de vida santa, dedicada sempre aos mais necessitados. David lembra que, ainda nos Estados Unidos, ela o levou para conhecer imigrantes que ajudava no Arizona.
- A Dorothy amava seus inimigos. Ela tentou abraçar o Bida poucos dias antes de sua morte, mas ele não quis. Três meses antes do crime, recebera aviso de autoridades do Pará, alertando que estava em risco, mas disse: "Eu sei como lidar com isso" - conta.
Irmã ia a assentamento tentar evitar conflito
Foi nessa ocasião que David viu a irmã viva pela última vez. Aconteceu na entrega de um prêmio de direitos humanos da OAB, em Belém. Na véspera do assassinato, falaram-se pelo telefone. Dorothy estava preocupada com 12 trabalhadores do assentamento Esperança, em Anapu, que tiveram casas e plantações queimadas a mando de fazendeiros.
- Ela iria para lá no dia seguinte, mas foi assassinada antes - lembra David.