Título: A França à escuta do Brasil
Autor: Magnoli, Demétrio e Véran, Jean-François
Fonte: O Globo, 17/05/2007, Opinião, p. 7
Quando propõe a criação de um Ministério da Identidade Nacional e da Imigração, o presidente eleito da França Nicolas Sarkozy conecta duas afirmações distintas: a identidade nacional está em crise e esta crise se deriva da imigração, notadamente de origem africana e muçulmana. As proposições não são novas e evidenciam fundas linhas de fratura.
Numa versão, o argumento gira em torno da diferença cultural. As migrações magrebinas ameaçariam a França, pois as acentuadas diferenças étnicas e religiosas impediriam a integração. Mais ainda: os filhos de imigrantes recusariam a própria idéia de integração. Na moldura do terror global, o "levante dos subúrbios" de 2005 ativou o temor do "inimigo interno", islamita e violento, que converte a diferença cultural em arma política contra os valores da República. Sob essa lógica, os imigrantes seriam portadores de um comunitarismo tradicional inconciliável com a noção universalista de cidadania.
Na versão alternativa, o problema não é a diferença cultural, em si mesma, mas a falta de reconhecimento das diferenças como um valor positivo. Essa abordagem constata o preconceito e o racismo que existem sob as leis, numa nação erguida à luz dos princípios da igualdade dos cidadãos, da laicidade oficial e da democracia política. Contudo, as soluções aventadas sugerem formas diferentes de abandono do universalismo e de celebração da "diversidade".
O novo ministério de Sarkozy seria a oficialização de uma divisão bipolar dos cidadãos em "franceses de sangue" e "franceses de origem estrangeira". As propostas de registro étnico dos cidadãos, que encontram eco em setores da esquerda, representam algo não muito diferente: a idéia de uma "França do arco-íris", na qual conviveriam diversas "nações" étnicas separadas pela cultura. Nos dois casos, ancoram-se as identidades políticas das pessoas nas suas origens.
A encruzilhada é real e Sarkozy tem razão ao sublinhar o laço entre as questões da imigração e da identidade nacional, mas a causa da crise não são os imigrantes. Para dizer as coisas diretamente, é a nação - ou uma larga parcela de sua população - que teme a idéia de que se possa ser árabe ou negro e francês, ao mesmo tempo. Esse temor denuncia as fraquezas do universalismo e as ambivalências da identidade nacional na França.
A força do princípio universalista está na existência do Povo, uma figura política que permite não propor e não admitir nenhum exclusivismo. Por definição, o povo dos cidadãos não tem e não pode ter origem. Entretanto, o princípio universalista da cidadania convive, contraditoriamente, com uma concepção orgânica e romântica da nação. Essa "França de mil anos", fundada por Clóvis em 498 e protegida por Joana D"Arc, hoje convertida em símbolo do nacionalismo xenófobo de Le Pen, seria portadora de uma "essência" étnica gaulesa e de uma "cultura" singular. A imigração evidencia a disfuncionalidade dessa identidade dupla e exige uma redefinição da natureza da comunidade política.
Mas existe uma saída, para além da violência xenófoba ou da renúncia multiculturalista ao universalismo. A França deve se desembaraçar de seu mito de origem gaulês, a fim de dissolver a fantasia de um grupo étnico que defende suas fronteiras internas diante de outros grupos que serão mais étnicos se essa for a sua descrição política e jurídica. Como começam a descobrir os movimentos anti-racistas, a França precisa aprender a se imaginar mestiça. Para isso, ela precisa do Brasil.
Não se trata de uma mestiçagem pensada em termos físicos ou étnicos: a "fusão de raças" da qual procede um outro mito de origem, que é o do Brasil. Trata-se, sim, de excluir da fotografia da nação, enquanto espaço político, a questão das origens. Esse passo não implica uma amnésia coletiva. Ele não suprime o "dever da memória", especialmente o de recordar o colonialismo, mas o qualifica como a memória do dever de persistir no princípio da igualdade.
A França deve aprender a se imaginar mestiça, pois a política democrática é, antes de tudo, mestiçagem. Se hoje a França precisa do Brasil é porque o Brasil conseguiu viver positivamente a mestiçagem, não como a ideologia mascarada do branqueamento, que também foi e continua a ser em setores da elite, mas como uma formidável dinâmica de libertação, reencontro e criatividade. Mas o Brasil só pode servir de inspiração à França se permanecer fiel ao que há de positivo na idéia de mestiçagem, combatendo o racismo enquanto recusa a sedução envenenada da "raça", das "origens" e de uma "diversidade" congelada em narrativas essencialistas do passado.
DEMÉTRIO MAGNOLI é sociólogo e doutor em geografia humana pela USP (magnoli@ajato.com.br) e JEAN-FRANÇOIS VÉRAN é doutor em antropologia, professor na Universidade de Lille3 e professor-visitante na UFRJ (jean-francois.veran@univ-lille3.fr).