Título: Países ensaiam barreiras aos serviços remotos
Autor: Rodrigues, Luciana e Almeida, Cássia
Fonte: O Globo, 17/05/2007, Economia, p. 28

Sindicatos começam a exigir cláusulas sociais nas negociações comerciais para tentar conter fuga de empregos.

RIO, PEQUIM e BRASÍLIA. A crescente internacionalização dos serviços, que cria oportunidades de empregos qualificados em países em desenvolvimento, já desperta reações protecionistas nas nações ricas. Sindicatos e grupos de defesa dos direitos humanos exigem que os direitos trabalhistas façam parte da pauta de negociações comerciais. E, nos Estados Unidos, o Congresso vai exigir a inclusão de cláusulas sociais para aprovar a TPA (Trade Promotion Authority, conhecida como fast track, uma autorização especial para o Executivo negociar acordos comerciais).

Sem a renovação da TPA ¿ que termina em junho ¿ dificilmente as negociações na Rodada de Doha, na Organização Mundial do Comércio (OMC), serão destravadas. O governo americano poderá enfrentar dificuldades para ratificar acordos bilaterais firmados na América Latina, sem considerar a demanda do Congresso por exigências trabalhistas.

Americanos se queixam de abusos na China

Os temores dos americanos se voltam particularmente para a China. A Confederação Americana do Trabalho (AFL-CIO, da sigla em inglês) entrou com queixa no Congresso dos EUA e no Executivo, pedindo providências contra os chineses. A organização alega que o país fecha os olhos para as empresas que pagam salários menores do que os fixados em lei ou abusam de horas extras não remuneradas.

¿ O país está puxando para baixo os padrões trabalhistas de toda a economia mundial ¿ afirmou o secretário da AFL-CIO, Richard Trumka.

É para a Índia, no entanto, que têm sido transferidos os empregos mais qualificados. Na semana passada, por exemplo, o editor de um site de notícias locais da Califórnia, o ¿Pasadena Now¿, anunciou a contratação de dois repórteres indianos para fazer uma cobertura remota da política da cidade, acompanhando ao vivo, pela internet, as reuniões da prefeitura. Os jornalistas custariam ao site cerca de US$20 mil por ano, bem menos que a média de salários americanos. Mas a reação à notícia foi tão grande que o editor do site, James Macpherson, decidiu adiar a publicação das primeiras matérias dos indianos.

¿ Fomos impedidos de fazer isso por causa da atenção que recebemos ¿ disse Macpherson na ocasião.

Na Europa, segundo o diretor executivo do Programa de Investimentos Internacionais da Universidade de Columbia, Karl Sauvant, a reação de trabalhadores e governos à globalização dos serviços estaria avançando nos últimos tempos, especialmente, por causa da transferência de empregos para a Europa Central e Oriental, onde os custos de operação são, no mínimo, 50% menores.

Europeus temem redução do padrão de vida

O temor nos países mais desenvolvidos do continente é que o fenômeno reduza o padrão de vida dos trabalhadores. Além de baixos custos, mão-de-obra qualificada e boa infra-estrutura, República Tcheca, Hungria, Polônia e Eslováquia têm a vantagem de obedecer às regulamentações da União Européia, porque foram incorporadas ao bloco em 2004.

¿ Os países desenvolvidos têm como desafio retreinar os trabalhadores, para que eles possam migrar para novas indústrias, desempenhar novas atividades e se manterem produtivos ¿ afirma Sauvant.

A brasileira GE Celma, que atende a clientes americanos e europeus, como Fedex, Continental Airlines, KLM e LAN, enfrentou problemas quando começou a atuar no exterior. A empresa faturou R$1,3 bilhão em 2006 (90% com recursos externos), revisando 200 turbinas de aviões, e espera chegar a R$1,6 bilhão este ano com 280 aeronaves.

¿ Houve dificuldades por sermos uma empresa brasileira. Só depois do negócio com a Fedex ficamos bem vistos no mercado ¿ conta Marcelo Soares, presidente.

Por enquanto, a fabricante de software PIX não sentiu o peso de barreiras ou taxações nas vendas para os Estados Unidos, um dos seus principais clientes. Seu programa, Wintility, que gerencia informações corporativas, já freqüenta terminais de 30 países:

¿ Não há burocracia na nossa venda. Nosso produto vai direto pela internet ¿ diz Ilan Goldman, sócio da empresa.