Título: Serra: invasão da USP é 'exploração política'
Autor: Freire, Flávio
Fonte: O Globo, 26/05/2007, O País, p. 12

Para o governador, protesto é motivado por interesses eleitorais e viola o estado de direito; ele quer solução pacífica.

SÃO PAULO. O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), disse ontem que a ocupação do prédio da reitoria da USP, que ontem completou 24 dias, é motivada por "exploração político-eleitoral". Sem citar partidos políticos que já anunciaram apoio à invasão, como PSOL e PSTU, Serra classificou o protesto de "violação que quebra o estado de direito", mas frisou que pretende chegar a uma solução negociada para evitar o uso de força policial na desocupação.

- Sem dúvida, há um grupo com motivação de caráter político. Alguns outros (grupos), com motivação político-eleitoral. Não se trata puramente de reivindicações, uma vez que elas mudam a cada dia das negociações. É exploração política, sem dúvida - disse o governador.

"A PM estuda com cautela uma saída pacífica"

Serra voltou a afirmar que os decretos assinados por ele no início do ano não ferem a autonomia de USP, Unicamp e Unesp, como diz parte dos alunos, funcionários e professores das três instituições.

- Essa ocupação é uma violação que quebra o estado de direito e prejudica as universidades. Esperamos uma solução pacífica, que não depende do governo, mas que se cumpra uma ordem judicial. A PM estuda com cautela uma saída pacífica - disse.

O dirigente do PSTU Dirceu Travesso, que deve concorrer à Prefeitura de São Paulo em 2004, reagiu à declaração de Serra, e afirmou que sua manifestação de apoio aos estudantes é uma forma legítima de luta contra o que considera intervenção do governo no ensino público.

- Não tem nada de eleitoreiro. Ninguém está pensando em eleição, mas em como evitar que o ensino público sirva aos interesses de uma elite política mais interessada em transferir a educação para a iniciativa privada - disse Travesso, também à frente da Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas), que apóia a ocupação da reitoria.

- A intenção de governo de intervir na gestão universitária é clara quando se lança um decreto que cria uma secretaria para definir políticas e diretrizes no ensino superior - disse o presidente do sindicato dos Trabalhadores da USP, Magno Carvalho.

Em meio à discussão política, o governador reafirmou que o decreto que impõe às universidades prestação de contas diária - e não mais mensal - ao Sistema Integrado de Administração Financeira dos Estados e Municípios (Siafem), tem como objetivo dar transparência à utilização de seus recursos, e não ferir a autonomia das instituições.

Presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1963, José Serra tem dito a interlocutores que a solução para o impasse na reitoria da USP transformou-se num dilema. Embora defensor do direito de manifestação, o tucano tem dito que, ao permitir que os alunos permaneçam mais tempo no prédio, cria-se embaraço legal ao governo. Ao saber da reunião dos alunos com o secretário estadual de Justiça, Luiz Antônio Guimarães Marrey, na noite de anteontem, o próprio governador teria dado ordens para que se ponham panos nas quentes na relação entre os alunos e o governo.

- Tentaremos chegar a uma solução na segunda-feira, numa nova reunião com os alunos - disse Marrey, que não acredita na revogação dos decretos, mas "num aperfeiçoamento que atenda a todas as partes".