Título: 'As chances de a emissora voltar são mínimas'
Autor:
Fonte: O Globo, 28/05/2007, O Mundo, p. 19

Para Carlos Correa, diretor da ONG de análise dos meios de comunicação Espaço Público, as chances de a RCTV retomar as transmissões por canal aberto na Venezuela ou operar por cabo são mínimas. Segundo ele, Hugo Chávez tem o controle do Judiciário, o que evita retorno legal, e capacidade técnica para bloquear eventuais sinais clandestinos emitidos do exterior.

Leonardo Valente

A RCTV tem chance de conseguir reaver sua concessão para transmitir em sinal aberto?

CARLOS CORREA: As chances de a emissora voltar são mínimas. As reformas políticas feitas nos últimos anos deram a Hugo Chávez o controle sobre a Justiça. Por isso, é improvável que algum tribunal decida a favor da RCTV. A emissora está apelando para organismos internacionais, mas também duvido que o governo dê alguma atenção a isso.

Uma das opções sugeridas pelo governo é a transmissão por cabo. Isso seria viável para a RCTV?

CORREA: Para o governo seria uma alternativa cômoda, pois o sistema de TV a cabo só atinge a elite, que não é o público de Chávez, e ainda assim ele não teria em cima o desgaste do fim de uma emissora. Mas para a RCTV é inviável. Seu foco está nas camadas mais populares. Ela não sobreviveria nesse novo contexto, teria que mudar completamente. Além disso, seus equipamentos estão nas mãos do governo por tempo indeterminado. Não vejo, portanto, viabilidade comercial e nem financeira para esta empreitada.

Há informações de que a emissora possa passar a transmitir seu conteúdo do exterior para a Venezuela. O que o senhor acha dessa iniciativa?

CORREA: Estão circulando informações de que a RCTV pode passar a produzir sua programação em Miami e a partir de lá enviar sinais para a Venezuela. Isso até é possível. Mas sua penetração não será a mesma de antes. O governo tem recursos para bloquear os sinais na maior parte do país. A RCTV tem penetração em 98% do território nacional, e isso ela não vai conseguir mais transmitindo de fora.

O senhor aponta esta decisão como a mais polêmica de Chávez desde que assumiu o governo?

CORREA: O presidente Chávez já tomou uma série de medidas polêmicas e que tiveram muita repercussão. Mas o que podemos afirmar é que essa é a que mais atinge sua base política. As pesquisas são claras ao mostrar que boa parte de seu eleitorado, que é a parte mais pobre do país, está descontente com o fechamento da emissora.

Os protestos nos Estados Unidos, na União Européia e em outros países podem prejudicar a política externa da Venezuela?

CORREA: Chávez já contava com esse tipo de protesto. No campo internacional, o que mais preocupa neste momento é a influência que este tipo de política pode ter para o continente. A vitória do governo certamente vai repercutir em outros países, que podem achar que devem fazer o mesmo.

A Venezuela está menos democrática depois do fim da RCTV?

CORREA: Certamente. O fechamento da emissora é um marco, uma derrota da liberdade de expressão e dos preceitos democráticos. Um prova de que o conceito de democracia hoje na Venezuela não é mais o mesmo que em outros tempos.