Título: A grei reunida
Autor: Cruvinel, Tereza
Fonte: O Globo, 29/05/2007, O Globo, p. 2
Algumas coisas estavam no ar, não precisavam ser ditas. Antes mesmo do discurso de Renan Calheiros, era tangível a torcida de seus pares, tanto do governo e da oposição, para que ele fosse convincente o bastante para encerrar o caso que constrange o Senado. Deram-lhe um crédito de confiança, traduzido pela sessão de cumprimentos solidários. Mas encerrado o caso não está: há perguntas a serem respondidas por Renan, há o receio geral de que venham novas denúncias, e preocupação e cálculo sobre a instalação da CPI da Navalha.
Depois do discurso, os governistas diziam em uníssono que Renan havia "matado a pau".
- Ele desconstruiu a denúncia da "Veja", fez uma confissão corajosa e dolorosa, demonstrou ter procedido corretamente em todos os aspectos. Não foi omisso e assumiu com recursos próprios suas responsabilidades - dizia a líder Ideli Salvatti (PT).
Falava da relação extraconjugal, da qual teve uma filha, e da pensão alimentícia que "Veja" afirmou vir sendo paga por um lobista. Pela oposição, Agripino Maia (DEM) não escondia o desejo de êxito ao colega, mas era mais cauteloso.
- Ele respondeu com rapidez, e isso foi bom. Apresentou provas e argumentos que parecem consistentes e abrangentes, mas que precisam ser examinados pela Corregedoria, até para que o assunto seja cabalmente esclarecido.
Mais tarde, o presidente do PSDB, Tasso Jereissati, embora dizendo-se satisfeito com as explicações, defendia a abertura de processo no Conselho de Ética. Isso significa que o caso não vai morrer aqui.
Num país em que a vida pessoal dos políticos sempre foi preservada, com indulgência para os pecados da conduta pessoal, Renan deve ter sido o que mais se desnudou e se penitenciou em público. Palocci teve sua vida pessoal insidiosamente explorada por setores da oposição, mas pelo não-dito, pelo insinuado. No desespero, incriminou-se, e caiu. Nos Estados Unidos, onde a devassa da vida pessoal é comum, Clinton foi um penitente. Escapou do processo de impeachment, mas não elegeu o sucessor.
Renan teria mesmo que se desnudar para responder à acusação de "Veja". Mas dando à invasão de sua intimidade a dimensão emocional que de fato tem - realçada pela presença de dona Verônica, que ele disse ter tentado evitar - Renan tocou em algo muito caro a seus pares. Sensibilizou-os. Mas a grei política é também regida pelo forte instinto da sobrevivência. E este ajudou a compor aquele cenário de clã solidário no infortúnio, visto no desfile de cumprimentos. Pois, ao final de seu discurso, Renan disse em tom solene o que andaria dizendo de forma mais direta: que apoiará qualquer investigação das relações entre políticos e empresas, em todos os níveis. A carapuça tem medida e endereços certos.
Há também a cultura do Senado, muito avessa a punir os pares, mesmo quando os indícios são fortes. O Conselho de Ética, até hoje, só cassou Luiz Estêvão, que não tinha sequer defesa.
Mesmo assim, o caso de Renan ainda deve se arrastar, mesmo dando em nada, ou apenas no seu definhamento político. Há uma aposta contra ele, parte da aposta para implodir a coalizão governista. Há sua relação com o dono da Gautama, que pode lhe render novas denúncias. Mas há também outro instinto unindo a grei, advertindo-a de que tanta denúncia, no fundo, só serve ao enfraquecimento do Parlamento.