Título: Sucesso e crise da Polícia Federal
Autor: Cruvinel, Tereza
Fonte: O Globo, 01/06/2007, O Globo, p. 2

O ar é tenso e pesado no prédio que abriga a direção e a inteligência da Polícia Federal em Brasília. Seu apelido de Máscara Negra é homenagem à fachada de vidro fumê, mas evoca também o tempo em que era instrumento de repressão e espionagem política da ditadura militar. Na democracia, a PF afirmou-se como Polícia de Estado e Judiciária. Mas, no auge do prestígio alcançado no governo Lula pelo combate à corrupção, a disputa interna pelo comando jogou-a em sua pior crise.

As críticas aos chamados "excessos" de conduta no curso da Operação Navalha - em particular o vazamento selecionado de gravações e acusações - também geram divergências internas. Alguns acham que as críticas apenas disfarçam pressões para inibir o combate à corrupção. Outros reconhecem os excessos e temem os danos à imagem da PF e à sua própria eficácia, quando é tão grande seu sucesso. Esta semana a revista "The Economist" traz reportagem sobre o apoio interno às operações da PF, um sucesso que acabou gerando disputa e crise.

Em algumas áreas do governo, tem-se atribuído o acirramento da luta interna à decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, a quem a PF é subordinada, de manter provisoriamente como diretor-geral o delegado Paulo Lacerda. Ele queria sair, aceitou ficar mais três meses. A perspectiva de mudança deflagrou a disputa por sua sucessão. Interino, ele teria perdido o controle sobre os diferentes grupos. Esta é também a interpretação do deputado Marcelo Itagiba, delegado licenciado, para quem o marketing das operações, com seus nomes chamativos e insinuantes, ajudou a criar o caldo de cultura para o acirramento da disputa interna de poder.

A tensão das últimas semanas - por conta da Operação Navalha, da greve salarial e das disputas - virou comoção nas últimas horas com a decisão da ministra Eliana Calmon, do STF, de pedir o afastamento do segundo homem da PF, o vice-diretor geral Zulmar Pimentel. Na Operação Navalha, comandada por seu contendor interno Renato da Porciúncula, diretor de inteligência. Não só os que são diretamente ligados a Zulmar ficaram revoltados. Em seus 32 anos de carreira, ele angariou respeito e prestígio profissional. Do outro lado, não só a turma de Porciúncula gostou. Muitos acham que Zulmar é um gestor à moda antiga, que protege sua patota. Ele é acusado de ter demitido o superintendente no Ceará, João Batista, avisando-o, porém, de que estava sendo investigado pela Operação Octopus. Esta operação, como se sabe, é que gerou a Navalha.

Investigando quatro delegados, entre eles Batista, suspeitos de envolvimento com empresários baianos, os policiais acabaram esbarrando no empresário Zuleido Veras e desvendando seu esquema de ganhar e superfaturar obras públicas subornando servidores. Mas, reservadamente, tanto o diretor Paulo Lacerda como o superintendente em São Paulo, Geraldo Araújo, têm externado convicção de que Zulmar não praticou o vazamento de que é acusado. Mas ele caiu, depois de trocar insultos com o adversário, cuja turma está feliz. O que não se sabe, e isso é o mais grave, é o que vai acontecer no comando da PF. Há o rumor de que Tarso Genro teria pedido a Lacerda para ficar definitivamente e ele teria aceitado. Um outro diz que iria efetivar Porciúncula. Outro ainda, que pretende nomear o secretário Nacional de Segurança Pública, Luiz Fernando Corrêa. O ministro ontem estava no Paraguai.