Título: BC acelera corte e reduz juro básico para 12%
Autor: Duarte, Patrícia e Eloy, Patricia
Fonte: O Globo, 07/06/2007, Economia, p. 33
Para analistas, desvalorização do dólar pesou na decisão do Copom de baixar 0,5 ponto. Posição não foi unânime
BRASÍLIA, RIO e SÃO PAULO. O Banco Central (BC) decidiu acelerar o ritmo de corte da taxa básica de juros. Ontem, o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou que reduziu a Selic em 0,5 ponto percentual, para 12% ao ano, teto estabelecido pela Constituição de 1988, mas nunca antes atingido. Nos três encontros anteriores, o BC havia optado pelo corte de 0,25 ponto percentual. A decisão, no entanto, novamente não foi unânime, com cinco diretores a favor da redução maior e dois pelo corte de 0,25 ponto percentual.
- Se o BC não tivesse reduzido assim, havia o risco de a meta de inflação estourar para baixo - disse o economista-chefe do BNP Paribas, Alexandre Lintz.
Ele se referiu à meta de inflação para este ano, de 4,5% pelo IPCA, com margem de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Ou seja, com piso de 2,5%. O relatório Focus do próprio BC desta semana mostrou que o mercado calcula que o índice fechará o ano em 3,5%, percentual que vem sendo caindo a cada semana. O câmbio abaixo dos R$2 é o principal pilar para esse movimento e, para boa parte do mercado, não há motivos para mudanças a curto prazo. O país continua recebendo muitos dólares, sobretudo pela balança comercial.
Valorização do real ajuda no controle da inflação
Segundo Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, a desvalorização do dólar foi determinante na decisão.
- O real valorizado tem sido benéfico ao controle da inflação porque a estrutura de preços da economia brasileira ainda tem forte relação com a variação cambial, seja pela presença das commodities agrícolas nos índices de preços do atacado ou pela participação como fator de ajuste dos preços de algumas tarifas públicas, como energia elétrica e telefonia fixa, ou mesmo nos combustíveis derivados do petróleo - explica.
Antonio Licha, coordenador do Grupo de Conjuntura da UFRJ, diz que hoje a variável-chave para o crescimento econômico é o câmbio e não mais os juros. Ele explica que o dólar fraco tem reduzido a competitividade das empresas brasileiras, especialmente na indústria de transformação:
- Se os juros recuassem num ritmo mais acelerado, poderiam compensar parte das perdas com o efeito câmbio.
Para Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), a queda de 0,5 ponto da Selic vai impedir que o dólar sofra ainda mais pressão, já que as taxas de juros estão subindo no mercado futuro. O economista lembra que os contratos de juros de longo prazo subiram ontem na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). Os que têm vencimento em janeiro de 2009 projetavam ontem taxa de 10,73%, contra 10,69% na véspera. Segundo ele, parte do mercado apostava em redução de 0,25 ponto percentual:
- Se a redução dos juros fosse mais tímida, haveria impacto maior no câmbio, atraindo mais investidores estrangeiros e derrubando ainda mais a cotação da moeda americana.
IPCA teve alta de 0,28% em maio, acima das previsões
Nos últimos três dias surgiram dados que começaram a dar força aos que apostavam no maior conservadorismo no BC, ou seja, em que o ritmo de corte de 0,25 ponto poderia ser mantido. Entre eles, a percepção de que a atividade econômica está cada vez mais aquecida, o cenário internacional mais pressionado com expectativas de aumento nos juros nos Estados Unidos e alguns indicadores de inflação mostrando um pouco mais de fôlego. Ontem, por exemplo, o IBGE divulgou que o IPCA fechou maio com alta de 0,28%, acima da expectativa do mercado, de 0,21%, e pouco abaixo do 0,25% de abril.
Com a aceleração no corte ontem, avaliam os especialistas, o BC deve, nas próximas duas reuniões - em julho e em setembro - , fazer novas reduções de 0,5 ponto. No entanto, no seu curto comunicado, o Copom deixa em aberto a questão, ao afirmar que decidiu o corte "neste momento". A autoridade monetária diz no texto que continua "avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação".
O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, disse que o corte de ontem foi um "avanço", mas é insuficiente.
- Os juros básicos de 12% ao ano não terão influência sobre a valorização cambial, nociva a vários segmentos industriais exportadores - disse o presidente da Fiesp.
COLABORARAM Fabiana Ribeiro e Ronaldo D"Ercole