Título: O Haiti é aqui?
Autor: Pereira, Merval
Fonte: O Globo, 08/06/2007, O País, p. 4
Os ecos da atuação bem sucedida do Exército brasileiro chefiando a missão de paz da ONU no Haiti trazem à discussão a possibilidade de atuação dos militares no combate ao crime organizado nas grandes cidades brasileiras, especialmente o Rio de Janeiro, onde as favelas dominadas pelo narcotráfico são muito semelhantes às que nosso Exército encontrou em sua missão. Cité Soleil, uma favela plana onde vivem 300 mil pessoas em condições de muito mais miséria do que os nossos favelados, segundo depoimento generalizado, foi considerada oficialmente ocupada pelas forças da missão da ONU em abril passado, depois de três anos de presença das tropas multinacionais no país e de um ano de cerco pelas tropas brasileiras.
Por que não fazer o mesmo trabalho aqui no Brasil? Há várias questões a serem superadas, como o poder de polícia que o Exército não tem legalmente, mas não há dúvidas de que a experiência que as tropas estão adquirindo poderia ser utilizada por aqui. Como lembra Antonio Jorge Ramalho da Rocha, sociólogo da Universidade de Brasília que trabalha no Haiti junto à missão de paz, "as Forças Armadas brasileiras, em particular o Exército, não vieram ao Haiti com vistas a adquirir experiência a ser usada no Rio ou em outras partes do país. Nada obsta, claro, retirar dela ensinamentos úteis para as Forças Armadas brasileiras, principalmente na área de inteligência".
O general Augusto Heleno, ex-comandante da missão de paz da ONU no Haiti e hoje no gabinete do comandante do Exército, concorda que o aspecto físico da favela haitiana é semelhante ao das brasileiras, mas ressalta que "a miséria é mais chocante. Os soldados do Rio não sentiram choque nenhum, mas os do Sul, sim". O sociólogo Rubem César Fernandes, do Viva Rio, que trabalha no Haiti em contato direto com a ONU e o Exército brasileiro, foi chamado porque os primeiros militares que lá chegaram acharam que a situação era parecida com a do Rio, e lembraram-se da experiência da ONG nas favelas:
"Assim como nas favelas do Rio, facções lutam pelo território. Lá há quatro comandos que se enfrentam. No momento dos conflitos armados, eram combatentes bem treinados. O nível de pobreza é incomparável, nossas favelas são luxuosas lá. Cité Soleil estava tipo o Alemão, de conflito armado, só entra no tiroteio. As armas são menos potentes do que as daqui, mas há muita munição".
O Viva Rio está promovendo projeto de reabilitação urbana de Bel-Air, área do século XVIII um pouco parecida com Nova Orleans. "A inspiração foi a Lapa. Recuperar uma área que tem história forte de cultura local, onde o carro-chefe seria a boemia: comida, música, dança, artesanato", diz ele. Bel-Air está dominada, do ponto de vista militar: as gangues, desde julho de 2005, não entram em confronto direto com o Exército, mas ainda há conflitos e houve uma onda de seqüestro muito forte ano passado.
O general Heleno diz que o ponto crucial foi "que nós aprendemos que, para exercer o efetivo controle onde há bandidagem, é preciso entrar e permanecer. Encontrar um ponto forte, e a partir dali fazer o patrulhamento e efetivamente controlar a área. Com isso se conquista a confiança da população. Onde entrar a repressão, tem que entrar a construção".
O deputado federal Fernando Gabeira, do PV, que esteve no Haiti, acompanhou a experiência de ocupação bem sucedida pelas tropas brasileiras de Bel-Air, que estava totalmente fechada pelas gangues. Elas não têm relação com o narcotráfico, que é incipiente, mas são forças populares treinadas e armadas pelo presidente deposto Jean Marie Aristides e que partiram para uma ocupação territorial com componente político e muito de bandidagem mesmo, como seqüestros-relâmpagos e assaltos.
Para ele, o mais importante "foi uma série de ações para substituir o governo. Os soldados que faziam a patrulha entraram em contato com a população recolhendo o lixo, um serviço importantíssimo porque ficava amontoado. A população levava o lixo para um ponto e jogava, ficavam montes muito altos e perigosos para a saúde. Depois disso, tiveram condições de expulsar os bandidos com o apoio da população. Contrataram uns meninos para fazer alguns trabalhos, de intérprete, ensinaram português a outros".
Gabeira acha que "a chance de dar certo aqui é muito grande. Se você se coloca para as comunidades, depois de ocupar, com o governo em ação, tem o reconhecimento e o apoio". Ele lembra que a atuação das tropas jordanianas em Cité Soleil, antes de os brasileiros assumirem o comando das ações na maior favela do Haiti, é prova de que "ocupação só não resolve. O Brasil construiu escolas, implantou programas esportivos, fez cisternas que possibilitaram o acesso à água. Fizeram toda uma política de assistência social e de melhoria de infra-estrutura elementar que viabilizou o êxito".
O general Heleno constata que "se continuar a ausência do Estado, vamos continuar tendo a situação que vivemos no Rio, onde se faz uma operação, há troca de tiros, morre gente, e depois sai. Aí o bandido fala para a população: estão vendo, eles não são capazes de ficar, quem fica somos nós. Se vocês ficarem do lado deles, nós massacramos vocês. Isso nós aprendemos no Haiti".
O apoio da companhia de engenharia, que atua junto com a tropa, foi fundamental para prestar serviços básicos para a população: cavar poço artesiano, arrumar escola, asfaltar rua, instalar posto de saúde. "A população passou a se aproximar da tropa", registra com orgulho o general.
AMANHÃ, A OCUPAÇÃO