Título: Compadre de Lula teve movimentação financeira superior à renda declarada
Autor: Aggege, Soraya
Fonte: O Globo, 11/06/2007, O País, p. 4

Polícia Federal suspeita que Morelli tenha praticado sonegação fiscal.

CAMPO GRANDE. O compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dario Morelli Filho, preso pela Operação Xeque-Mate, é suspeito de sonegação fiscal. Ele teve um crescimento na movimentação financeira de dez vezes entre 2003, primeiro ano do mandato de Lula, e o ano passado. Em 2006, a movimentação de Morelli totalizou R$661.707,69, ou seja, R$55 mil por mês. Segundo relatório levado à Justiça Federal pela PF, com dados do Escritório de Pesquisa e Investigação da Receita Federal, o movimento indicaria crime de sonegação fiscal. Apenas entre 2005 e 2006, a movimentação de Morelli dobrou, de R$320.365,66 para R$661.707,69.

Em seu depoimento à PF, Morelli não conseguiu esclarecer por que tinha uma movimentação financeira superior aos seus rendimentos declarados em 2002, 2004 e 2005. Segundo o documento, em 2002 ele movimentou R$176.151,42. No ano seguinte o movimento caiu para R$62.798,42. A partir de 2004, passou a dobrar: R$178.475,87, R$320.365,66 em 2005 e R$661.707,69 no ano passado.

Morelli tentou explicar que a renda extra viria de sua empresa, a Dario Morelli ME, que terceirizava a locação de carros para campanhas do PT. Segundo ele, a empresa rendia apenas R$5 mil três meses por ano, e somente nos anos eleitorais, o que totalizariam R$15 mil em 2002, 2004 e 2006 (anos eleitorais).

Ele declarou à PF que ganha R$4.800 brutos como assessor de diretoria da Saned (empresa de Saneamento da Prefeitura de Diadema, gerida pelo PT), um suposto salário informal de R$1.500, que receberia para gerenciar uma casa de bingos em Ilhabela; R$1 mil da pensão que sua mulher, Soraia Pinheiro de Souza, recebe para o filho, mandada pelo ex-marido dela, e R$5 mil da empresa de locação de carros. E não explicou a movimentação de R$55 mil mensais.

Morelli diz que grande parte de seus bens são financiados

As propriedades que Morelli declarou possuir também não condizem com a renda declarada: uma lancha Regal de 27 pés, com valor estimado de R$60 mil; uma casa de praia em Caraguatatuba, de R$50 mil; um apartamento em São Bernardo, de R$50 mil; um Montana 2005, de R$35 mil; e uma L200, 2003, avaliada em R$60 mil. Segundo ele, grande parte dos bens são financiados. Os bens declarados à Receita Federal em 2005 totalizaram R$150 mil. A empresa foi avaliada em R$5 mil em sua declaração à Receita, em 2005.

Morelli - acusado de ser sócio do ex-deputado Nilton Cezar Servo, apontado como chefe de uma quadrilha de jogos de azar - negou a participação no crime. Ao ouvir seus próprios telefonemas com Servo, Morelli ficou em silêncio em alguns momentos e, em outros, disse que não se recordava do episódio. Ele também se calou quando perguntado sobre a acusação de ter corrompido policiais. Morelli não quis explicar se o dinheiro viria de seus negócios com o PT. Declarou que alugou veículos na última campanha para o diretório regional do PT, em São Paulo. E disse que não se lembrava quais foram seus principais clientes petistas.

Morelli afirmou que é filiado ao PT e conhece o presidente Lula e seu irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, há cerca de 20 anos. Contou ter conhecido Vavá nas campanhas de Lula, e este, no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Depois que Lula foi eleito presidente, teria conversado com ele apenas em sua casa em São Bernardo, em períodos esporádicos. Neste ano, Morelli conversou duas vezes com Lula, "mas nada sobre política", segundo o relatório. O advogado de Morelli, Milton Fernando Talzi, disse que está preparado para fazer a defesa de seu cliente.

Tucano quer explicações de Tarso sobre vazamento

O PSDB decidiu levar para dentro do Congresso a Operação Xeque-Mate e cobrar do ministro da Justiça, Tarso Genro, explicações sobre se houve vazamento de informações para os investigados. Trechos de escutas telefônicas indicam que Morelli suspeitava de que estava sendo monitorado pela PF. O líder tucano na Câmara, Antonio Carlos Pannunzio (SP), disse que vai apresentar requerimento pedindo a convocação de Tarso em uma das comissões temáticas da Câmara. No Senado, o líder Arthur Virgílio (PSDB-AM) quer convocar o diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda, e alguns dos indiciados pela PF.

Por assessoria, o ministro informou estar à disposição do Congresso. Mas a base alertou:

- Convidar, não tem problema. Mas convocar, não - reagiu o líder do governo na Câmara, José Múcio (PTB-PE).