Título: Grandes partidos tentam aprovar voto em lista
Autor: Braga, Isabel
Fonte: O Globo, 13/06/2007, O País, p. 8

Cúpulas pressionam, mas há racha na maioria das bancadas; PT decide hoje se fecha ou não questão.

BRASÍLIA. Com as bancadas divididas, a Câmara deflagra hoje a votação da reforma política, e o primeiro ponto do debate será a polêmica lista preordenada de candidatos nas eleições proporcionais (voto em legenda). As cúpulas dos grandes partidos apóiam a mudança, que altera profundamente o processo eleitoral brasileiro. Alguns devem fechar questão, como o PT, mas há divisão na maioria das bancadas, e o plenário está rachado.

Segundo o texto do projeto substitutivo do deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), os atuais deputados, eleitos na última eleição, têm preferência na ordem da lista. Mas essa ordem (quem serão os primeiros a encabeçá-la) terá que ser confirmada em convenção do partido.

Poder de caciques é maior crítica ao novo sistema

A maior crítica dos opositores da lista fechada é que ela estimularia o caciquismo na escolha dos candidatos. O Democratas e o PCdoB fecharam questão a favor da lista, e os líderes prometem voto unido pela mudança no sistema eleitoral. O PT antecipou para a manhã de hoje a reunião com a executiva do partido - que defende o fechamento de questão - mas o líder, Luiz Sérgio (RJ), vai defender a liberação da bancada.

- Se já tem uma posição do partido, fixada pela executiva, e se a maioria da bancada está convencida disso, não há necessidade de fechar questão. O clima é tenso, e isso não ajuda. Vou continuar trabalhando na linha do convencimento e levar essa reflexão à executiva - avisou Luiz Sérgio.

Segundo o líder, até a semana passada, a bancada estava dividida ao meio em relação à lista fechada. Ontem, em levantamento feito pelo deputado Gilmar Tatto (SP), 60% manifestaram-se a favor e 40%, contra. Os senadores petistas também se reuniram ontem e, segundo Eduardo Suplicy (SP), dos 12, apenas três aceitam a lista fechada. Eles farão um apelo à executiva do partido para que não seja aprovado o fechamento de questão nesse ponto.

O líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), também está fazendo uma consulta interna, mas acredita que, entre os 92 deputados, 60% estejam a favor da lista. Para Henrique Alves, o critério de escolha dos candidatos pelo partido pode ter defeitos e gerar desconfianças, mas é melhor do que o critério econômico que vem dominando as últimas eleições.

- O critério é o da convenção do partido. É melhor que o partido decida a lista, apesar das desconfianças e das imperfeições, do que a decisão que está prevalecendo a cada eleição: a do poder econômico - afirmou o peemedebista.

O PMDB defenderá que cada convencional tenha direito a cinco votos nos candidatos do partido. Segundo o texto que será votado, cada convencional tem direito a três votos, que não podem ser dados a um mesmo candidato.

- Acredito que, dessa forma, a influência dos caciques será menor - acrescentou Henrique Alves.

PSOL defende que eleitor possa incluir nome ao votar

No PSDB, a bancada está também dividida e o líder, Antonio Carlos Pannunzio (SP), pretende fazer nova reunião hoje para decidir como irá encaminhar a votação. Os tucanos defendiam o voto distrital, que exige mudança constitucional, e foi descartado como opção, neste momento, pelos demais líderes. Dos 14 deputados do PPS, oito votam a favor da lista. O PSOL está a favor da lista, mas defende que o eleitor possa incluir o nome de um candidato ao votar e, se a sua votação fosse relevante, poderia alterar a lista preordenada pelo partido.

Estão majoritariamente contra a lista o PP, o PTB, o PDT, o PSB e o PR. Mas a maioria desses partidos deve liberar suas bancadas.

- Somos contra a lista porque ela tira do eleitor o direito de escolher seu candidato - justificou o líder do PSB, Márcio França (SP).

- Voto em lista é voto na identidade do partido, e não na aparência ou na excentricidade do político - rebate o líder do DEM, Onyx Lorenzoni (RS).

O acordo de procedimento para a votação da reforma política foi fechado em reunião do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP) e os líderes partidários ontem. O acordo prevê a votação nominal (em que cada deputado assume o voto no painel) de cada artigo do projeto de reforma política. Os líderes decidiram começar a votação pela lista fechada, já que o entendimento predominante é que não há como aprovar o financiamento público exclusivo das campanhas sem que o sistema de lista esteja valendo. Além desses dois pontos, também serão votadas outras mudanças importantes, como o fim das coligações partidárias nas eleições proporcionais e a fidelidade partidária.