Título: Stédile: sonho da reforma agrária acabou
Autor: Franco, Bernardo
Fonte: O Globo, 13/06/2007, O País, p. 10

Líder admite que modelo defendido pelo MST está esgotado e que assentamentos estimulam desmatamento.

BRASÍLIA. O Movimento dos Sem Terra (MST) está em crise de identidade. No primeiro dia de discussões do seu 5º Congresso Nacional, em Brasília, o líder do movimento João Pedro Stédile admitiu ontem que o modelo de reforma agrária defendido há mais de duas décadas pelo MST está esgotado. Sem renegar a inspiração marxista, e reeditando palavras de ordem contra o neoliberalismo e o capital estrangeiro, o dirigente avisou que o movimento precisa ir além da tática de ocupações de terra para garantir a sobrevivência.

Para Stédile, a vitória do agronegócio no campo obriga o MST a se politizar e buscar novas bandeiras, como a recuperação da indústria nacional e a defesa de uma nova receita de desenvolvimento. Os ingredientes, ele admitiu, ainda não estão nos manuais da esquerda brasileira.

- Aquela reforma agrária com que o MST sonhou durante 20 anos não existe mais. Se ficarmos só na pauta da terra, seremos derrotados - disse.

Comemorados como conquistas do movimento, os assentamentos espalhados pelo país também caíram em desgraça. De acordo com Stédile, 65% dos lotes foram distribuídos na área da Amazônia Legal, longe do mercado e perto do dinheiro fácil da extração ilegal de madeira. A falta de planejamento e infra-estrutura também impediriam os agricultores de produzir resultados capazes de competir com as grandes empresas.

- A maioria dos assentamentos devia ser chamada de projetos de colonização, porque estimula o desmatamento, não dá lucro aos agricultores e abre espaço para a plantação de soja e o cultivo de gado. A idéia de que o camponês tem que morar no seu lote é uma invenção da burocracia brasileira - criticou Stédile.

As dúvidas existenciais do MST passam pela relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, pela primeira vez, não foi convidado para um congresso do movimento.

- Votamos no Lula com a expectativa de que ele representasse um projeto antineoliberal, mas ninguém em sã consciência pode dizer que o governo implantou outro modelo - lamentou Stédile.

Ele circulou pelo ginásio Nilson Nelson, que abrigará cerca de 17 mil militantes até sexta-feira, com uma credencial de delegado que o identificava apenas como "João Pedro", da coordenação nacional. Entre tendas de lona e barracas de produtos orgânicos, o principal ideólogo do MST agrupou jornalistas e correligionários numa roda de cadeirinhas de metal para compartilhar os dilemas que levam o movimento ao divã, 27 anos depois de sua fundação.

Apesar das críticas ao poder dos bancos e às soluções do governo para o campo, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e a aposentadoria rural, Stédile ressalvou que a culpa pela crise não pode ser atribuída só ao presidente e ao PT. Lamentou o período de pouca "mobilização de massas" e advertiu que os militantes do MST precisam esperar um novo momento de radicalização para ampliar seu espaço na arena política.

- Precisamos ter paciência histórica. As soluções vão demorar - afirmou.

Amanhã, os sem-terra planejam fazer uma grande marcha por Brasília. A manifestação passará pelo Setor de Embaixadas, para protestar contra as empresas transnacionais, e terminará em frente ao Congresso.