Título: Causas erradas
Autor: Leitão, Míriam
Fonte: O Globo, 15/06/2007, Economia, p. 22

É um enorme privilégio estudar em universidade pública no Brasil. Maior ainda o privilégio de estudar numa universidade paulista. Os contribuintes de São Paulo gastam 9,57% do seu ICMS, R$4,2 bilhões por ano, com apenas três universidades públicas estaduais. O governo federal gasta R$12 bilhões com 55 universidades. São os mais caros estudantes para o contribuinte brasileiro. E um grupo deles usa esse privilégio para pisar no estado de direito.

A democracia nos custou caro demais e parte da luta foi através de um outro movimento estudantil, bem diverso deste. Um dos pilares deste edifício democrático é que decisão judicial tem que ser cumprida, goste-se ou não. Os estudantes que estão em greve em São Paulo decidiram que a regra não vale para eles, e ficou esse precedente perigoso nos ameaçando. A Justiça determinou a reintegração e, há quase um mês, a ordem não é respeitada.

Há uma aura de romantismo em torno de movimentos estudantis, herdada de outras lutas. Mas essa visão não se justifica quando se trata deste específico movimento em São Paulo. Os líderes de organizações fora do tempo como o PCO, Partido da Causa Operária, e o PSTU, que encamparam e hoje encabeçam a baderna, não sabem nem mesmo a mais banalizada das frases marxistas: a de que a história só se repete como farsa. Certamente não entenderam o sentido mais profundo da utopia marxista: o de combater as desigualdades.

Eles são os beneficiários de uma desigualdade educacional do Brasil que nos envergonha há décadas, desde quando o país decidiu que gastaria mais dinheiro educando a elite que os pobres; que concentraria recursos no ensino superior em vez de no fundamental. Foi assim que se criou a sociedade injusta que apequenou nosso destino. O Brasil é um dos países em que essa distorção de investimento é mais grave.

E quais são as causas "operárias" e "socialistas" que os movem? Querem o fim de uma ameaça que nunca existiu à autonomia universitária, querem mais privilégios e mais dinheiro público para eles mesmos.

A grita começou depois que foi criada uma Secretaria de Ensino Superior pelo governo de São Paulo que cuidaria das três universidades estaduais: USP, Unicamp e Unesp. Na época, alguns decretos do governador deixaram margem para que se concluísse que eles ameaçavam a autonomia universitária, garantida pela Constituição. A partir de um movimento dos alunos, um grupo de professores encapou o pleito no mês que costuma mesmo ser de protestos, por causa do dissídio.

Agora os alunos pedem mais alojamentos; querem que quem já completou os cursos continuem lá nos alojamentos pagos com dinheiro público; que quem não passa de ano por anos a fio não seja afastado da universidade. Esse último pedido, aparentemente já aceito pela reitoria, mostra o desrespeito com o direito do contribuinte. Se alguém sustentado pelos impostos malbarateia esse dinheiro não pode ser punido. Tem que continuar com o direito de queimar o dinheiro coletivo, estacionado numa vaga que tantos disputam.

São Paulo tem 110 mil alunos nas três universidades estaduais, e 3 milhões de estudantes no ensino fundamental. Gasta, por ano, cerca de R$38.000 por universitário e R$2.400 com um aluno do fundamental. O nome dessa diferença é privilégio.

Hoje pobres e negros já começam a entrar nesses centros de estudo, mas a maioria dos alunos continua sendo da classe média. Estudar nas melhores instituições de ensino superior, num país que só tem 10,9% de universitários entre seus jovens em idade de estar nesse nível de ensino, parece privilégio; e é. Isso num país que ainda tem 2,4 milhões de jovens analfabetos com menos de 30 anos. Num país que tem errado tanto em algumas áreas que ainda tem estudante de primeiro grau que fica sem aula por falta de professor; em que meninos e meninas andam quilômetros para chegar a uma sala de aula; em que, há um mês numa área conflagrada do Rio de Janeiro, o Complexo do Alemão, a guerra não deixa que as crianças freqüentem a escola.

Se os jovens das universidades paulistas tivessem a generosidade que se espera dos jovens, olhariam em volta e perceberiam a chance que o Brasil lhes deu, o esforço que os contribuintes fazem para que estudem numa boa escola, o custo que o país decidiu ter com alguns poucos escolhidos.

Felizmente não são todos, a maioria dos estudantes paulistas está indo à aula normalmente, mas o que a imprensa publica é a anormalidade. É natural que notícia seja o que é diferente. O que espanta são fatos como a expulsão do diretor da unidade de Araraquara da Unesp, aos empurrões, pelos alunos. Da violência contra o diretor da Faculdade de Arquitetura da USP. O que espanta é a tibieza de reitores. O que choca é a visão curta, estreita, egoísta de um grupo de jovens querendo mais mimos de uma sociedade que tem outras emergências e escolheu educá-los para liderar o Brasil no século XXI. Há tantas causas no país à espera dos jovens, e esses ficam lá, olhando para o próprio umbigo.