Título: Dólar baixo acelerou corte de juro, diz ata do BC
Autor: Duarte, Patrícia e Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 15/06/2007, Economia, p. 24
Importações ajudam a atender demanda interna, segundo instituição. Bovespa bate novo recorde e chega a 53.712 pontos.
RIO e BRASÍLIA. Apesar de continuar preocupado com o ritmo mais acelerado do crescimento econômico do Brasil e com possíveis impactos na inflação, o Banco Central (BC) entende que o cenário internacional e o câmbio valorizado estão segurando os indicadores de preços. Por isso, optou por cortar em 0,5 ponto percentual a taxa básica de juro (Selic) na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) na semana passada, levando-a para 12% ao ano.
Essa avaliação está na ata do Copom, divulgada ontem pelo BC. No documento, a instituição revisou para baixo importantes previsões de inflação, o que fortalece ainda mais no mercado a expectativa de que o corte de meio ponto percentual deverá se repetir no próximo encontro do comitê, nos dias 17 e 18 de julho. Nas três reuniões anteriores, a redução da Selic havia sido de 0,25 ponto percentual.
- Se nada mudar, a ata mostra que o corte de 0,5 ponto vai continuar - afirmou o sócio-diretor da Modal Asset Management, Alexandre Póvoa.
Na ata, o BC diz que "o setor externo, que vem atuando de forma importante para ampliar a oferta agregada, continua tendo influência predominantemente benigna sobre as perspectivas para a inflação, ao passo que o ritmo de expansão da demanda doméstica pode colocar riscos para a dinâmica inflacionária no médio prazo".
BC mantém o tom de cautela no texto da ata
Para a autoridade monetária, as importações mais fortes, com o dólar barato, têm ajudado a atender a demanda crescente do país, sem pressionar os preços. A decisão da última reunião do Copom não foi unânime, com cinco diretores votando pelo corte de meio ponto e dois por apenas 0,25 ponto percentual.
Com base nesse cenário, o BC acabou mudando fortemente seus cálculos para o reajuste de energia elétrica neste ano, passando de aumento de 2,2% para queda de 0,9%. Para telefonia fixa, as previsões também caíram, mas de forma mais modesta: passaram de um reajuste de 3,4% para 3,3%. No total de preços administrados, a projeção de reajuste recuou de 4,2% para 3,6% em 2007 e, em 2008, de 5,2% para 4,8%.
O BC manteve o tom muito cauteloso, dando destaque aos itens que ainda preocupam. O Copom argumenta, por exemplo, que não consegue medir com precisão os reflexos dos cortes de juros feitos desde setembro de 2005, que já somam 7,75 pontos percentuais.
Mercado espera novos cortes de 0,5 ponto nos juros
Pesa ainda o fato de a renda e o nível de emprego e de crédito continuarem crescendo, podendo afetar a demanda e pressionar os preços.
- Se a gente não soubesse que o corte foi de 0,5 ponto, acharia que a ata tratava de uma decisão de 0,25 ponto (de redução da Selic) - resumiu a economista-chefe do ABN Amro, Zeina Latif.
Com o risco de uma alta nos juros americanos cada vez mais distante, o mercado acionário teve ontem uma onda de otimismo. No Brasil, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) bateu novo recorde, com alta de 1,36%, fechando aos 53.712 pontos. No primeiro dia deste mês, a bolsa já havia registrado históricos 53.422 pontos. Num dia de forte volatilidade, o dólar caiu 0,98%, a R$1,927. O risco-Brasil caiu 4%, para 144 pontos centesimais. Os negócios ainda ganharam impulso com a ata do Copom. Na avaliação dos investidores, o texto abre espaço para novos cortes de 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros.
O indicador americano mais importante do dia, a inflação no atacado (PPI, na sigla em inglês) avançou 0,9% em maio, após crescer 0,7% em abril. Apesar da alta, o núcleo do índice, que exclui os custos de energia e alimentos, ficou dentro do esperado pelo mercado e subiu 0,2%, descartando, para analistas, a possibilidade de pressão inflacionária e, portanto, de um aumento nos juros dos EUA.
Com isso, houve uma acomodação na rentabilidade dos títulos do Tesouro americano (treasuries), usados como referência para o mercado financeiro, com vencimento em dez anos. Após subir fortemente no início desta semana, o papel ficou praticamente estável ontem, rendendo 5,21% ao ano. Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones subiu 0,53% e o S&P, 0,48%. Já o Nasdaq valorizou-se 0,66%.
- Com a curva de juros estabilizada nos EUA e mais a expectativa de novos cortes de 0,5 ponto na Selic, o mercado ficou mais otimista - disse Daniella Marques, da Mercatto Gestão de Recursos.