Título: Dois que decidem
Autor: Cruvinel, Tereza
Fonte: O Globo, 16/06/2007, O Globo, p. 2
É grave a situação do senador Renan Calheiros, mas ainda é grande a disposição de seus pares do Conselho de Ética para salvá-la. A gravidade da situação produziu até uma mudança em seu padrão de atuação política. Afeito aos bastidores, assumiu a frente da operação de auto-salvamento na quinta-feira à noite, depois que reportagem do "Jornal Nacional" lançou a suspeita de que tenha fraudado contraprovas apresentadas ao Conselho de Ética.
A reportagem inibiu a disposição anterior do Conselho para rejeitar ontem mesmo a acusação, mandando o caso para os arquivos. A reportagem do "Jornal Nacional" alterou ligeiramente a correlação de forças, mas o suficiente para forçar o adiamento da decisão. Ela estava fadada a acontecer, e por isso mesmo Renan antecipou-se, apresentando-a como proposta sua através do senador Romero Jucá. Isso lhe confere a condição de acusado tranqüilo, que tudo que quer é esclarecer, ao mesmo tempo que deixa mais confortáveis os que devem apoiá-lo até o fim. Ficarão mais à vontade para rejeitar a acusação depois que forem periciados, ainda que apressadamente, por um técnico da PF, os documentos que Renan rapidamente apresentou para refutar a suspeita de que fraudou provas de ter auferido, com a venda de gado, os recursos com que bancou as tais despesas. Depois que forem ouvidos, ainda que pró-forma, o funcionário da empreiteira e o advogado da jornalista Mônica Veloso, recebedora da pensão. O que eles não toparam ontem foi a rejeição da denúncia após a reportagem demolidora, atraindo as iras de uma opinião pública disposta a jogar ovos e latinhas na classe política.
Com a reportagem, houve alteração no humor do Conselho e também na correlação de forças. Entre os oito senadores antes fechados com Renan, dois passaram a exigir mais investigação: Eduardo Suplicy (PT) e Renato Casagrande (PSB). Os documentos apresentados causaram boa impressão, inclusive no líder do PSDB, Arthur Virgílio, que pediu enfaticamente o adiamento e a oportunidade de melhor exame. Mas o destino de Renan passa a depender agora, em grande parte, da posição a ser adotada por Suplicy e Casagrande. O primeiro é conhecidamente imprevisível e o segundo já vinha se mostrando pouco colaborativo com o presidente da Casa. Antes da escolha de Epitácio Cafeteira como relator do caso, ele foi sondado para a função e recusou. Eles agora são fiéis da balança. Será um longo final de semana para Renan e seus defensores.