Título: Não dá para culpar o vizinho e ignorar nossa responsabilidade na Amazônia
Autor: Melo, Liana
Fonte: O Globo, 18/06/2007, Economia, p. 18
Ex-chanceler defende metas de redução de gases do efeito estufa para o país.
Com a autoridade de quem era ministro das Relações Exteriores nas negociações que antecederam a assinatura do Protocolo de Kioto no governo FHC, Luiz Felipe Lampreia critica o governo Lula por não querer assumir compromissos de redução das emissões de gases do efeito estufa pós-2012, ainda que o desmatamento da Amazônia seja um telhado de vidro. Do seu apartamento no Leblon, Lampreia admite que não "precisa mais vender tapetes", já que agora é ex-chanceler. Hoje, ele tem assento no Conselho de Administração de oito multinacionais.
Liana Melo
Parece que o Brasil não está disposto a assumir compromissos na segunda fase de Kioto, que começa em 2012.
LUIZ FELIPE LAMPREIA: O Brasil precisa evoluir em sua posição e aceitar compromissos internacionais de limitações de emissões. Vários fatores estão atuando nessa direção, inclusive o fato de a bancada ambientalista no Congresso ser expressiva. A recusa em aceitar metas é insustentável. Não dá para culpar o vizinho e ignorar nossa responsabilidade na Amazônia.
O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, ganhou da imprensa americana o apelido de "texano tóxico", por não ter assinado o Protocolo de Kioto. Bush um dia vai se livrar dessa imagem?
LAMPREIA: Acho bem difícil. O presidente dos EUA é um político de orientação de extrema-direita, do tipo que considera a questão ambiental um estorvo ao crescimento econômico e ao poderio americano.
Na última reunião do G-8, na Alemanha, o presidente Lula defendeu a criação de um fundo de compensação para países em desenvolvimento e pobres diminuírem o desmatamento. O senhor acha mesmo que os países ricos estão dispostos ajudar?
LAMPREIA: O meio ambiente subiu na agenda internacional. Quando Al Gore, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos no governo Bill Clinton, perdeu a eleição americana para Bush, em 2000, ele praticamente tinha escondido o tema da sua plataforma. Hoje, Al Gore transformou o meio ambiente num dos principais pontos da sua campanha política à presidência dos Estados Unidos, nas próximas eleições.
A política externa de Lula sempre foi considerada antiamericana. O que o senhor acha?
LAMPREIA: Lula tem uma visão bastante ampla das relações internacionais. Mas é claro que existe no seu governo pessoas com uma visão antiamericana. O melhor exemplo foi a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), que acabou enterrada em Mar del Plata, na Argentina, em 2005.
Com a Bolívia, o Brasil assumiu uma postura bem mais amistosa. O governo deveria ter sido mais duro com Evo Morales?
LAMPREIA: Não é costume do Brasil manifestar-se duramente contra os países vizinhos, mas, com a Bolívia, deveria ter feito isso. Temos várias empresas lá fora e, quando entram dinheiro e interesses no meio, não é possível manter uma postura puramente teórica. Lula tem a obrigação de adotar uma postura menos ambígua.
Essa postura afeta a imagem do Brasil?
LAMPREIA: Esse tipo de postura sinaliza fraqueza. Além de mostrar que o governo confunde ideologia com interesse nacional. O que os bolivianos fizeram no caso da Petrobras foi um absurdo. Nesse episódio costumo dizer que um touro pequeno, a Bolívia, deu um baile num touro de 800 quilos e derrubou o Brasil.
Como o senhor avalia o tratamento que vem sendo dado ao presidente da Venezuela pelo governo Lula?
LAMPREIA: Chávez é um rival de Lula e do Brasil. Ele quer assumir a hegemonia da América do Sul. Até os postes de rua já perceberam isso.