Título: Nem aliados salvam
Autor: Vasconcelos, Adriana e Lima, Maria
Fonte: O Globo, 21/06/2007, O País, p. 3

SUCESSÃO DE ESCÂNDALOS.

Renan é derrotado, e Conselho de Ética abre processo por quebra de decoro.

Mais uma derrota foi imposta ontem ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que há quase um mês tenta provar que usou recursos próprios, e não de uma empreiteira, para pagar despesas pessoais. O Conselho de Ética do Senado não só não liqüidou o caso ontem, como queria Renan, como decidiu ampliar o prazo de investigação até que a Polícia Federal conclua a perícia sobre a documentação apresentada pela defesa do presidente do Senado. O processo por quebra de decoro parlamentar - que tem como punição máxima a cassação do mandato - já está aberto, e, a partir de agora, ele não poderá renunciar ao mandato para escapar da perda dos seus direitos políticos por oito anos. Esse direito só será preservado se ele for, ao final, absolvido no processo de cassação.

Renan teve que concordar com o prosseguimento dos trabalhos do Conselho, ao fim do dia, quando convenceu-se de que não teria a maioria dos votos dos 15 integrantes do colegiado para aprovar o parecer do senador Epitácio Cafeteira (PTB-MA), que pedia o arquivamento da representação do PSOL por quebra de decoro parlamentar. Renan é acusado de ter usado recursos do lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior, para fazer pagamentos mensais da pensão à jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha.

A previsão inicial é de que, ao fim da nova perícia, o próprio Renan terá de comparecer ao Conselho para depor e se explicar. Só então será votado o parecer final sobre a representação e o processo disciplinar por quebra de decoro. Ontem, em meio à confusão da sessão do Conselho, Renan chegou a se oferecer para depor hoje, mas a proposta não evoluiu.

Comissão decidirá a investigação

Ao fim da sessão, que se estendeu por mais de três horas, o presidente do Conselho, Sibá Machado (PT-AC), designou uma comissão para decidir os limites da investigação sobre as denúncias e o novo cronograma de tramitação do processo.

Essa comissão, que já deverá se reunir hoje, será comandada pelo próprio Sibá e terá a colaboração dos senadores Adelmir Santana (DEM-DF), Demóstenes Torres (DEM-GO) e Sérgio Guerra (PSDB-PE), além de Romeu Tuma (DEM-SP), como corregedor do Senado. O senador Wellington Salgado (PMDB-MG) também participaria como relator substituto do processo, mas, antes do fim da reunião do Conselho, renunciou ao cargo, por não concordar com o adiamento da votação do parecer de Cafeteira.

A votação foi adiada com o apoio de senadores da base aliada e da oposição. Para líderes da oposição, o destino de Renan está em suas próprias mãos e na sua capacidade de argumentação.

- Foi uma decisão equilibrada. A única saída para o senador Renan e o Senado é a transparência total - afirmou o presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE).

Com a missão de encerrar o caso ainda ontem, o relator substituto Wellington Salgado copiou o ex-relator Cafeteira e ameaçou renunciar logo no início da sessão. Depois que vários líderes pediram o adiamento da votação, Sibá Machado concordou:

- Considerando que o resultado da perícia não responde ao que foi solicitado, sugiro não votar nenhum dos votos apresentados até que as dúvidas sejam esclarecidas - disse Sibá, patrocinando a tese do adiamento.

Salgado ficou irritado:

- Eu me sinto preparado. Se meu voto aditivo não for relatado hoje, não quero continuar como relator; me substituam. Não abro mão. Estou preparado e quero votar hoje! - esbravejou, reabrindo as discussões sobre os procedimentos adotados.

Logo no início da sessão, senadores da base e da oposição mostraram grande constrangimento em votar o relatório pedindo o arquivamento, diante do laudo da Polícia Federal que aponta disparidades na documentação apresentada por Renan. Entre eles Eduardo Suplicy (PT-SP), Marconi Perillo (PSDB-GO), Sérgio Guerra (PSDB-PE), Renato Casagrande (PSB-ES), Arthur Virgílio (PSDB-AM), Agripino Maia (DEM-RN) e Demóstenes Torres (DEM-GO), evidenciando a falta de apoio a Renan para arquivar ontem mesmo o processo.

- Venha para cá, senador Renan! Crie o ambiente que acabe com o impasse entre nós e a sociedade. Não estamos julgando apenas o senador, estamos sendo julgados lá fora. Nada de ficar no muro. Se for votado hoje o arquivamento, o PSDB vai votar contra - avisou Sérgio Guerra.

- Com toda a amizade que eu tenho pelo senador Renan Calheiros, nada como a sua palavra para esclarecer tudo - disse Suplicy.

Quando o líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), contestava os limites da investigação, o líder do PSDB, Arthur Virgilio, insistiu que o presidente do Senado fosse ao Conselho de Ética:

- É inadiável que o senador Renan apareça aqui para fazer, ele próprio, a sua defesa. Não dá mais para evitar isso - disse Virgílio.

Por telefone, Renan pediu a Jucá que convencesse o plenário a marcar para hoje à tarde seu depoimento:

- Acabo de receber uma ligação do senador Calheiros. Ele pede para vir aqui amanhã à tarde.

Demóstenes reagiu:

- Seria louvável que o senador Renan viesse aqui, mas não amanhã. Ele deve vir depois que a PF concluir as investigações.

Até Valter Pereira (PMDB-MS), um dos mais ferrenhos defensores de Renan, pediu o adiamento. Alegou não ter condições de votar sem a conclusão das investigações. Nesse momento, o plenário já era majoritariamente contra o arquivamento.

- Não mudei de postura, mas preciso me posicionar no mérito com a consciência tranqüila - anunciou.

O Conselho deve se reunir hoje para delimitar o âmbito da investigação e marcar o depoimento de Renan. Antes do término da sessão, José Nery (PSOL-PA) provocou nova polêmica ao exigir que, para depor, Renan se afastasse da presidência do Senado.

- Isso não está em discussão aqui - protestou Jucá.