Título: OMC tenta salvar Rodada de Doha do fracasso
Autor: Jungblut, Cristiane e Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 23/06/2007, Economia, p. 37
Amorim diz que G-4 está morto, e Japão se propõe a mediar negociações entre ricos e pobres.
GENEBRA, BRASÍLIA e PARIS. A Organização Mundial do Comércio (OMC) fez ontem uma reunião de emergência para tentar salvar a Rodada de Doha, após o fracasso, na véspera, das negociações do G-4, que reúne Brasil, Índia, Estados Unidos e União Européia (UE), na Alemanha. Em meio a um impasse sobre subsídios agrícolas, o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, chegara a afirmar que o G-4 "está morto". O Japão se ofereceu para mediar as negociações, enquanto o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, procurou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
- Não penso que a Rodada de Doha esteja morta, nem sequer que esteja agonizando - disse Amorim após reunião com o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy. - Penso que é difícil (um acordo), mas não impossível.
Segundo Amorim, EUA e UE chegaram à reunião "com um nível mútuo de conforto":
- Estados Unidos e UE consideram que o que eles acertaram é um acordo para o restante do G-4.
O impasse levou o Japão a oferecer ajuda.
- Ninguém está fazendo a ponte entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento. Acho que o Japão deve fazer este papel - afirmou o ministro do Comércio japonês, Akira Amari.
Impasse em Doha não significará o fim da OMC
Já Lula disse a Blair que EUA e UE assumiram uma posição muito dura nas negociações e que a solução, agora, terá de ser política, não mais técnica. Segundo o porta-voz do presidente, Marcelo Baumbach, Blair disse acreditar que as próximas 48 horas serão decisivas para definir o rumo de Doha e que conta com a liderança de Lula para salvar as negociações.
- O presidente Lula observou que os países desenvolvidos buscaram acomodar seus próprios interesses defensivos em agricultura e, ao mesmo tempo, pedir contribuição desproporcional daqueles em desenvolvimento no que diz respeito aos bens industriais - disse Baumbach. - Foi desconsiderado o princípio central da rodada, que é o desenvolvimento.
O Ministério da Agricultura lamentou, em nota, a suspensão das negociações, citando a desproporcionalidade entre as ofertas agrícolas dos ricos e as concessões pedidas aos países em desenvolvimento.
Nas próximas duas semanas, os presidentes dos grupos negociadores das áreas sensíveis - agricultura e produtos industriais - tentarão costurar um novo documento. O Brasil será peça-chave nas consultas. Quando os textos forem apresentados, os países do G-4 só terão uma opção: aprovar ou rejeitar. Se rejeitarem, a rodada não será concluída este ano e pode acabar no limbo.
- Se a Rodada de Doha fracassar, estamos acabados - disse uma alta fonte da OMC, que não quis se identificar.
Lamy fez um apelo aos países-membros da OMC:
- Agora é preciso agir urgentemente para recuperar a confiança e para que as negociações sejam bem-sucedidas.
Por sua posição firme nas negociações, Brasil e Índia são acusados pelos países ricos de ameaçar Doha. Para alguns, o Brasil virou vilão.
- Há um ano Celso Amorim era visto na OMC como um conciliador. Hoje não é mais - comentou uma fonte.
O eventual fracasso da Rodada de Doha não levará a OMC a fechar suas portas: esta vai continuar resolvendo disputas comerciais. Mas, como disse um funcionário, sem Doha a OMC continuará refletindo uma realidade do passado.
(*) Correspondente, com agências internacionais