Título: Estudantes se culpam por reprovação
Autor: Gripp, Alan
Fonte: O Globo, 26/06/2007, O País, p. 8
Estudo da Unesco, no entanto, responsabiliza professores e escolas.
BRASÍLIA. Estudo realizado pela Unesco, em parceria com o governo federal, mostra que 82,4% dos alunos do ensino fundamental que são reprovados costumam culpar a si mesmos pelo fracasso. No entanto, o mesmo estudo aponta como motivo das reprovações uma série de fatores que eximem os alunos dessa responsabilidade. Entre as razões estão a falta de motivação dos professores, a pouca infra-estrutura das escolas e o fato de as instituições de ensino não levarem em consideração a realidade pessoal e familiar do estudante.
- Os alunos questionados têm, em média, até 10 anos. São crianças. A culpa deles em um fracasso escolar é mínima. Concluímos que o fracasso escolar é semeado muito cedo, quando a criança entra na escola. Se ela não se sente bem na escola, se não é valorizada e não sente afeto por parte do professor, ela tende a esmorecer e a se culpar pelos seus fracassos - diz o professor Cândido Gomes, da Universidade Católica de Brasília, um dos coordenadores do estudo, intitulado "Vivendo a escola: estudo etnográfico sobre o sucesso e o fracasso escolar no ensino fundamental".
Em contrapartida, de um modo geral, a maior parte dos alunos entrevistados tem uma autopercepção positiva. São 85,9% os que declaram obedecer à professora, 74,4% dizem se esforçar para "dar conta das coisas da escola" e 63% garantem que aprendem com facilidade.
Interrupções nos estudos e reprovações são mais freqüentes entre meninos. O estudo revela que 10% das meninas matriculadas na 4ª série têm 12 anos ou mais - ou seja, estão pelo menos dois anos defasadas em relação à idade esperada para a série. Esse percentual é de 16% entre os meninos. "As garotas levam alguma vantagem na trajetória escolar", conclui o estudo.
Alunos chegam à 4ª série fracos em leitura
O relatório também afirma que grande parte dos alunos do ensino fundamental chega à 4ª série com as habilidades para leitura inferiores ao esperado. "Dentro da sala de aula, o que eu vejo, na 4ª série, são alunos sem saberem, sem estarem alfabetizados, sem conhecerem as letras do alfabeto... e chegam à 4ªsérie desse jeito!", declarou uma professora do Rio Grande do Norte em depoimento aos pesquisadores da Unesco.
Outro dado relevante da pesquisa é o desânimo dos professores: 13% declararam que têm pouca ou nenhuma vontade de ir trabalhar. O desestímulo resulta nas muitas faltas dos professores relatadas no estudo, que acaba prejudicando os alunos. "Vários professores aqui da escola que estão em depressão. Isso acaba atrapalhando um pouco, porque tem que fazer contrato temporário e a turma é prejudicada, porque você começa a trabalhar de um jeito e vem outra pessoa. Aí a pessoa que estava doente volta, mas dali uns dias tem outra crise e vai embora de novo. Isso atrapalha nosso planejamento", disse uma professora do Distrito Federal.
Para Gomes, o desestímulo dos professores é um motivo fundamental para a dificuldade de aprendizado dos alunos:
- O professor é animador, seu papel não é só ensinar.