Título: São 9,5 milhões de jovens sem escola e sem emprego
Autor: Gripp, Alan
Fonte: O Globo, 26/06/2007, O País, p. 8

Pesquisa do Banco Mundial diz que custo para país da falta de investimento na juventude será de até R$330 bi.

BRASÍLIA. Os jovens brasileiros vão pouco à escola, recebem ensino de baixa qualidade e têm mais dificuldades do que em qualquer país da América Latina para conquistar o primeiro emprego. Por isso, matam e morrem mais, estão perto das drogas e iniciam a vida sexual cada vez mais cedo. Essas são algumas das conclusões do relatório "Jovens em situação de risco no Brasil", divulgado ontem pelo Banco Mundial, em Brasília. O documento diz que os investimentos brasileiros em políticas públicas para esse grupo não são suficientes.

Embora não arrisque dizer quantos brasileiros entre 15 e 24 anos estão nessa situação, o documento traz cálculo inédito: segundo os pesquisadores, o custo de ter uma geração em situação de risco será de até R$320 bilhões, ou cerca de 20% do PIB brasileiro. A estimativa, feita anualmente nos Estados Unidos, leva em consideração gastos diversos - dos impostos que jovens deixam de pagar quando largam os estudos até despesas públicas com saúde e segurança, entre outros exemplos.

Para economista, Brasil ainda tem muito a fazer

Dados da Secretaria Nacional de Juventude mostram que, hoje, 9,5 milhões de pessoas com idades entre 15 e 29 anos não estudam e estão desempregados. Desses, 4,5 milhões não completaram o ensino fundamental.

- Os países que investem nos jovens podem crescer mais meio ponto percentual por ano. Comparando com outros países da América Latina, o Brasil não tem desempenho péssimo. Em alguns pontos vai bem, mas ainda tem muito a fazer - disse a economista sênior do Banco Mundial Wendy Cunningham, co-autora do relatório.

A pesquisa revela que os riscos a que estão expostos os jovens brasileiros variam, e muito, de acordo com o estado em que vivem. Ao cruzar dados de 36 indicadores socioeconômicos, de comportamento, saúde, educação, desempenho e participação, os pesquisadores do Banco Mundial criaram índice que põe os jovens de Pernambuco e Alagoas entre os mais vulneráveis. Eles tiveram desempenho muito abaixo da média nacional.

O chamado Índice de Bem-estar Juvenil traz na outra ponta os jovens do Distrito Federal e de Santa Catarina. O bom desempenho é atribuído a altas taxas de escolaridade, oportunidades de empregos e baixo contato com drogas. O Rio de Janeiro ocupa a 14ª colocação, abaixo da média nacional. No entanto, quando são incorporados os dados que permitem realizar projeções futuras (o chamado índice completo), o estado sobe para o 5º lugar.

"O Rio (...) sobe em função de seu nível de riqueza acima da média, de maiores oportunidades de emprego no setor formal e maior acessibilidade dos serviços de saúde, em comparação com o resto do Brasil. A principal questão no Rio é o acesso a esses fatores, dado que seus jovens estão saindo particularmente mal em função das macrocondições do estado".

- Comparando com outros países da América Latina, o Brasil não tem desempenho péssimo. Em alguns pontos vai bem, como na prevenção de doenças sexuais, mas ainda tem muito a fazer - disse Wendy Cunningham.

O estudo considera diversos fatores, em geral associados, para definir o que é uma situação de risco. Os principais estão relacionados aos indicadores de educação e desemprego no país, apontados entre os principais problemas brasileiros. Mas também caracterizam o comportamento de risco o uso de drogas, a morte prematura, a iniciação sexual precoce e a incidência de doenças como, por exemplo, a Aids. Pesquisa semelhante é realizada nos EUA. A idéia é refazer o estudo em dois ou três anos para avaliar o impacto das políticas públicas voltadas para essa faixa etária.

"A dívida que o país tem com os jovens é muito alta"

O secretário Nacional de Juventude, Beto Cury, que participou do lançamento da pesquisa disse que o país realiza há apenas dois anos investimentos em políticas específicas para os jovens e que, em breve, elas surtirão efeito:

- A dívida que o país tem com os jovens é muito alta. Mas os investimento certamente aumentarão e os programas voltados para o jovem são hoje uma política de estado - disse Cury.