Título: Limitações ao jornalismo investigativo
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 26/06/2007, O Mundo, p. 22
Autoridades não podem ignorar denúncias, mas temem prejuízos ao governo, diz especialista
PEQUIM. Richard Baum, diretor do Centro de Estudos Chineses da Universidade da Califórnia, afirma que o jornalismo investigativo dificilmente será 100% liberado pelo governo chinês porque as denúncias de desvios, corrupção, abuso de autoridade ou mau uso de dinheiro público podem minar a confiança do povo no próprio governo. Mas há esperanças.
¿ O jornalismo investigativo está se impondo na China menos pelo esforço individual da imprensa tradicional e mais pela rapidez com que as informações se espalham na internet. As autoridades não podem mais ignorar denúncias debatidas por milhões. Mas não podem deixar a imprensa ir fundo em tudo. Este é o dilema.
O professor concluiu um estudo sobre a relação entre a imprensa e o governo chinês, intitulado ¿Implicações políticas da revolução de informação na China: a mídia, seus responsáveis e sua mensagem¿, que fará parte de um livro que o professor Cheng Li, do Brookings Institution, lançará, chamado ¿Mudanças no panorama político da China: além do 17ºcongresso do partido¿. A seguir, trechos do estudo:
A SITUAÇÃO HOJE: ¿Na China pós-Mao, expectativas de uma mídia mais plural e aberta foram nutridas no início da década de 80 apenas para serem esmagadas com o Massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989. Desde então, nem mesmo a intensa comercialização e a assustadora `tabloidização¿ de jornais, revistas, TV e rádio conseguiram romper o punho de ferro do PCC sobre a mídia. A censura é enorme, repórteres que tocam em assuntos sensíveis são ameaçados e editores, repreendidos ¿ ou coisa pior.¿
O CRESCIMENTO DA MÍDIA: ¿Quatro forças ¿ política, administrativa, econômica e tecnológica ¿ ajudam a explicar o crescimento da mídia chinesa: o afrouxamento das restrições ideológicas, que permitiu mostrar conteúdos mais variados e interessantes; as descentralizações fiscal e administrativa, que deram mais poder às gerências locais da mídia estatal; a comercialização, que impôs uma performance orientada para a sobrevivência financeira e, por fim, a comunicação eletrônica de novas tecnologias, que aumentou o volume das informações trocadas na China.¿
JORNALISMO IMPRESSO: ¿Desde 1978, a quantidade de revistas e jornais na China multiplicou-se por 10. Hoje, há mais de 1.900 jornais e 9.700 revistas. A circulação de jornais é a maior do mundo, com média de 93,5 milhões de cópias vendidas diariamente. Para compensar a perda de controle direto sobre o conteúdo impresso, os órgãos de propaganda das províncias têm adicionado ao chicote da censura alguns prêmios, oferecendo recompensas financeiras e profissionais para repórteres e editores com `histórias positivas¿ que sejam reproduzidas na mídia nacional.¿
BLOGS: ¿Em média, um blog é criado na China a cada segundo.¿
INTERNET: ¿Alguns sites populares, como Sina.com, permitem a leitores postarem comentários sobre notícias. Algumas vezes, os comentários são mais interessantes e controversos que as próprias notícias. Se um jornal ou site publica algo sobre assunto mais sensível, como por exemplo um escândalo envolvendo corrupção, a história rapidamente se propaga em blogs e salas de discussão pelo país.¿
CENSURA EM CÍRCULOS: ¿Há três níveis, ou círculos concêntricos, de controle da mídia. O mais central compreende a mídia tradicional ¿ organizações de notícias controladas diretamente pelo partido ou pelo governo, como Xinhua, ¿Diário do Povo¿ e CCTV. O controle é o maior neste nível. Por fora estão os meios de comunicação provinciais ou locais, não diretamente controlados pelo governo central. São mais capazes de publicar notícias fora da orientação do poder (mas raramente desafiadoras a essas diretrizes). Por fim, há a mídia fruto do ambiente eletrônico e mais competitivo, como os portais de internet ou provedores locais. Independentes financeira e administrativamente do governo central, alguns evoluíram para vozes da mídia alternativa.¿ (G.S.J.)